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Synonymes

(Synonymes, FRA/ISR/ALE, 2019)
Drama
Direção: Nadav Lapid
Elenco: Tom Mercier, Quentin Dolmaire, Louise Chevillotte, Uria Hayik, Olivier Loustau, Yehuda Almagor, Gaya Von Schwarze, Gal Amitai, Idan Ashkenazi, Dolev Ohana
Roteiro: Nadav Lapid
Duração: 123 min.
Nota: 10 ★★★★★★★★★★

Em 2014, em Israel, um jovem Yoav impressionou sua professora do jardim de infância com sua habilidade com as palavras. Em 2019, um Yoav já adulto perambula pelas ruas de Paris sem destino certo. Não se sente adequado nem com o lugar onde nasceu, que acabara de abandonar, nem com aquele que tenta conquistar, no centro da Europa colonizadora, a tal cidade luz que se apropria e nada devolve. Tudo é desespero no explorar da cidade em Synonymes.

A câmera de Nadav Lapid é frenética e acompanha esse desespero de Yoav, sem se preocupar muito com eixo, balanço ou alinhamento. Quer mostrar pressa e movimento, quer fazer o caminho de seu protagonista em busca desse lugar onde ele se sinta realmente pertencente. Em três minutos, a curiosidade despertada pela experiência captura o espectador.

Depois de Synonymes chegar em seu ponto mais tradicional narrativamente falando, na sequência do apartamento, onde estão estabelecidas ações de causa e efeito, embora não encontre desfecho lógico, o diretor solta a mão daqueles que capturara minutos antes e os bombardeia com informações, imagens e palavras, deixando com que cada um crie o seu caminho e seu entendimento daquilo que vê.

É muito significativo que Lapid retorne a um outro personagem que tenha habilidade com as palavras apenas cinco anos depois, dando a ele o mesmo nome do anterior, e estabeleça essa relação de falência de um sistema e, porque não, da espécie. Ele chega a um dos grandes problemas da atualidade: a inadequação do ser humano com o seu ambiente, comum a todos os indivíduos e a todas as nacionalidades. Em um mundo globalizado e tão conectado, a hiperindividalização dos homens faz com que a noção de pertencimento esteja sempre muito distante.

O ponto é destacado pela própria nacionalidade de Yoav. Vindo de Israel e, embora tenha orgulho de seu passado israelita, ele renega sua língua e sua pátria. “Vou ser francês”, diz com o sotaque carregado se negando a responder em hebraico. O que o personagem vivido por Tom Mercier, em uma atuação brilhante, demora a perceber é que a França não quer que ele seja francês e, além de se aproveitar, faz chacota dele, como faz de todos os imigrantes.

A relação com o país é marcada pelo relacionamento de Yoav com seus vizinhos Émile e Caroline, resquícios de Israel estão nas histórias que conta, nos colegas de trabalho ou em uma vídeo-chamada, a relação com os imigrantes, está no seus amigos ocasionais.

Por meio de uma profusão caótica, Lapid consegue equilibrar os signos, dando muita força a sua mensagem. Ao buscar referências – históricas, mitológicas ou individuais – e abrir brechas para conexões particulares, traz Synonymes para dentro de cada um que assiste ao filme e faz com que fique ali por algum tempo.

Daquelas experiências fundamentais.

Um Grande Momento:
Na festa.

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[43ª Mostra de São Paulo]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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