Crítica | FestivalMostra SP

System Crasher

(Systemsprenger, ALE, 2019)

  • Gênero: Drama
  • Direção: Nora Fingscheidt
  • Roteiro: Nora Fingscheidt
  • Elenco: Helena Zengel, Albrecht Schuch, Lisa Hagmeister, Melanie Straub, Victoria Trauttmansdorff, Maryam Zaree, Tedros Teclebrhan, Matthias Brenner, Louis von Klipstein, Barbara Philipp, Amelle Schwerk, Sashiko Hara, Fine Belger
  • Duração: 118 minutos
  • Nota:

Será que há problemas que não podem ser solucionados? Será que é possível que eles tomem proporções devastadoras e descontroladas a ponto de não terem condições de ser revertidos? Com um ritmo frenético e pausas elétricas em fades pink, System Crasher traz a história da jovem Benni, uma garotinha traumatizada que não consegue controlar a raiva. Pulando de instituição em instituição e voltando sempre para um abrigo emergencial, acompanhada de perto por uma junta de especialistas em crianças em situação especial, ela desperta o afeto das pessoas que conhecem o seu lado mais equilibrado.

A diretora Nora Fingscheidt joga o tempo todo com a tensão, seja na formulação da vibração das cenas, com movimentos de câmeras, coreografias cênicas ou diálogos gritados, ou na construção das interações interpessoais, principalmente entre Benni, Micha e Bafané. Há ainda uma atenção especial à mãe da garota, que não consegue se conectar à filha. Embora o retrato desta relação tente ser isento de julgamentos, eles são prontamente formulados por quem assiste ao filme, seja pela incapacidade de compreender uma situação como aquela ou pela notória culpa que faz parte da tradição materna ocidental.

System Crasher é um filme agitadíssimo, profundo e pesado, que consegue se equilibrar bem entre a doçura e a insuportabilidade de sua protagonista. Benni é ao mesmo tempo uma menina desprezível e adorável, alguém que se quer a léguas de distância ou dentro dos braços, protegida. A variação de personalidade, quase absurda, não deixa de ser crível, e faz com que todas as reações dos personagens a Benni fluam naturalmente. Não há uma reação que não possa ser compreendida.

O acerto nas sensações poderia, como é comum em filmes que dependem dessa associação sensorial, descambar para a provocação gratuita, mas não é o que acontece. Por nenhum momento, Fingscheidt, que também assina o roteiro, deixa que um caminho se sobreponha ao outro. Mesmo após muitas idas e vindas, após muitos surtos, todos os retornos são reconciliadores e a relação com o objeto primeiro é restabelecida. É impossível esquecer-se que se trata de uma criança, assim como é impossível não estabelecer uma ligação com o meio ou com a falta de preparo para aquilo que é diferente.

Em System Crasher, isso não está apenas no contexto, mas é traduzido em estilo e estética. Seja nos sons desesperados, pausas visuais ou pesadelos. E é muito interessante quando uma obra consegue provocar a experiência concretizando a sua forma. E muito disso se deve à atuação da jovem Helena Zengel como a nem sempre descontrolada Benni.

O desequilíbrio só aparece mesmo quando ela precisa se despedir de tudo o que construiu até ali. Depois de apostar em uma sequência delirante, a mais interessante até então, a diretora parte para uma solução pouco inspirada e menos digna à personagem. O outro desfecho seria muito melhor.

System Crasher é um filme que vem para abalar as estruturas, para tirar o espectador de qualquer lugar de conforto em que ele pense estar. Trazendo uma realidade que ninguém está preparado para conhecer e de um jeito que não vai ser fácil de olhar, mas que tem um magnetismo que faz com que os olhos fiquem grudados na tela por 118 minutos.

Um Grande Momento:
A casinha do cachorro.

[43ª Mostra de São Paulo]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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