Há um barco atravessando o Alto Solimões e, com ele, uma ideia de país que nunca chega inteira. O documentário Terceiro Milênio acompanha a expedição do então senador Evandro Carreira pela Amazônia no início dos anos 1980, mas o que se desenha ali está bem longe de qualquer registro protocolar. Ao invés de organizar a realidade para torná-la compreensível, o filme a expõe em estado bruto, cheia de ruídos, promessas e contradições que se acumulam.
Dirigido por Jorge Bodansky em parceria com Wolf Gauer, o documentário se inscreve numa tradição do cinema direto que recusa a mediação excessiva. A câmera observa, escuta, acompanha. Não há narração que conduza o olhar nem estrutura que organize moralmente o material. O que surge é um mosaico fragmentado de encontros com populações ribeirinhas, comunidades indígenas, trabalhadores, agentes do Estado. Cada fala carrega um pedaço de mundo, e esses pedaços raramente se encaixam.
No centro desse deslocamento está a figura de Evandro. Ele atravessa o filme como uma presença ao mesmo tempo concreta e simbólica. Político, mediador improvisado, espécie de embaixador de um futuro que ele próprio não compra. Seu discurso oscila entre o encantamento com a potência da Amazônia e uma tentativa quase desesperada de traduzir aquela realidade em termos de progresso. Há algo de performático na sua atuação, o que reforça o descompasso evidente entre aquilo que ele diz e aquilo que o filme mostra.
A Amazônia filmada aqui não é paisagem exótica nem reserva abstrata, é território em disputa. A exploração econômica aparece lado a lado com a precariedade das condições de vida, a presença do Estado surge fragmentada e muitas vezes ineficaz, e as relações com os povos indígenas revelam uma cadeia de mediações atravessada por interesses, ignorâncias e violências. O filme não organiza tudo isso como tese, prefere o atrito à explicação.
O tempo em Terceiro Milênio tem um comportamento curioso. O título aponta para um horizonte distante, mas as imagens insistem no presente contínuo de um país que parece repetir seus impasses. A ideia de futuro surge como linguagem política, não como experiência vivida. O que se vê é um Brasil que tenta se narrar como promessa enquanto permanece preso a estruturas que não se transformam.
Essa tensão atravessa o filme inteiro. Entre o discurso e o território, entre o projeto e a vida concreta, entre a imagem de um país possível e a realidade que se impõe diante da câmera. Bodansky não quer resolver esse conflito, e é justamente nessa recusa que o filme encontra sua força. Ele não organiza o caos, ele o mantém visível.
Visto hoje, o documentário ganha uma camada incômoda de permanência. As questões que atravessam aquela viagem seguem abertas, como se o tempo tivesse avançado sem alterar a estrutura do problema. A Amazônia continua sendo pensada como futuro enquanto permanece tratada como margem. E a grande pergunta que fica de Terceiro Milênio é: que país é esse que projeta o amanhã enquanto não consegue habitar o presente.
Um grande momento
Conhecendo Evandro Carreira


