Crítica | Streaming

Terra Selvagem

Perdidos em sonhos

(Jungleland, GBR, EUA, 2019)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Max Winkler
  • Roteiro: Theodore Bressman, David Branson Smith, Max Winkler
  • Elenco: Charlie Hunnam, Jack O’Connell, Jessica Barden, Jonathan Majors , John Cullum, Meredith Holzman, Patrick Walsh, Nick Mullen, Owen Burke, John Wilson, Jere Shea, Margaret Devine, Lucien Spelman, Scott Fielding
  • Duração: 90 minutos

Stanley, Lion e Sky são apenas mais três dos milhares de criaturas que habitam esse enorme mosaico que recebe o nome de Terra dos Sonhos, o lugar onde você “é livre para ser tudo aquilo que quer”. Se a propaganda é bonita, a realidade da “America”, como os Estados Unidos em sua megalomania gosta de se autointitular, mais do que feia, é triste. Grande pátria dos fracassados e sem oportunidade, sonhos dão lugares a tentativas frustradas e repetições. Voltamos então ao trio e a tantos outros. Estamos na Terra Selvagem.

Dirigido por Max Winkler, o filme une duas tramas já vistas antes: um boxeador talentoso e seu irmão problemático que andam pulando entre ringues de luta clandestina e fugindo de agiotas, e uma jovem que surge como encomenda, que precisa ser levada até um mafioso. Vividos por Charlie Hunnam, Jack O’Connell e Jessica Barden, em atuações inspiradas, o encontro dessas almas perdidas é o princípio da mudança de suas histórias, pela externalização da consciência do fracasso.

Terra Selvagem

O roteiro, assinado pelo diretor ao lado de Theodore Bressman e David Branson Smith, dá tempo à descoberta dessas personas e ao modo como elas vão se complementando na jornada. Stan e Lion seguem em sua relação codependente, com o deslumbre de um e a ingenuidade de outro, criando um ambiente de manipulação e abdicação que nenhum dos lados consegue perceber muito bem. É quando Sky chega, trazendo sua verdade e alterando a dinâmica, que as coisas começam a ser vistas de outra maneira.

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A fuga dos irmãos dos problemas, acaba se transformando em outra coisa e as paradas pelas cidades por onde passam vão ajudando a entender o que queriam ser, suas diferenças, aquilo que esperavam da vida e, mais, o mundo que os engoliu. São sonhos grandiosos que se contrapõem a desejos de uma rotina normal e promessas de facilidade que transformaram a vida em desespero nas brigas com mauricinhos, nas discussões familiares carregadas de menções religiosas, no sexo casual e no discurso machista.

Terra Selvagem

Tematicamente tudo é muito bem colocado em Terra Selvagem e o filme pinta com suas cores o presente perdido e o futuro incerto, mas Winkler perde a mão em vários momentos. Os alívios do filme são muito fugazes e a narrativa é dura a maior parte do tempo. Mesmo que não o vínculo seja eficiente, facilitado pelas atuações, e haja uma dificuldade em se afastar dos personagens, há um desequilíbrio incômodo entre eles.

Além disso, ao fim de Terra Selvagem fica uma sensação de facilitação que relembra aquela que percorre todo o filme, a das pequenas pausas que o fazem seguir adiante, mas não mudam a realidade e que, ali, não tem uma conotação tão positiva assim. É algo que contraria a própria lógica do filme, mesmo que não seja determinante. Ainda assim, toda a jornada não deixa de vale a pena.

Um grande momento
Lion fala

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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