Crítica | Festival

The Novice

Se destruir para ser

(The Novice, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Lauren Hadaway
  • Roteiro: Lauren Hadaway
  • Elenco: Isabelle Fuhrman, Amy Forsyth, Dilone, Jonathan Cherry, Kate Drummond, Charlotte Ubben, Sage Irvine, Chantelle Bishop, Jeni Ross
  • Duração: 94 minutos

Há algo de familiar no sombrio e angustiante The Novice, filme de estreia da Lauren Hadaway. Quantas vezes já estivemos no lugar da obcecada Alex Dallas, ultrapassando todos os limites, para mostrar que “poderíamos ser”? Em um mundo que ignora o médio e olha com atenção para as excelências, gênios, e virtuoses, essa insana — e desumana — tentativa de superação passa a fazer sentido. E é difícil olhar, primeiro para o espelho, depois para a loucura física em que mergulha a atriz Isabelle Fuhrmann. Porque uma coisa é falar em sair em busca do topo por detrás de uma mesa, lendo pilhas de livros, escrevendo artigos, elaborando fórmulas, ou mesmo criando algo, por mais que os processos sejam cansativos; outra, completamente diferente, é falar em atividades corporais, em esportes.

Alex decide ingressar na equipe de remo da faculdade e leva aos treinos um comportamento obsessivo de autoafirmação que já a acompanha há algum tempo. Quando a conhecemos, ela ainda está em sala de aula, fazendo um teste banal. Ela é a primeira da turma a terminar, mas refaz todas as questões diversas vezes e só deixa o local depois que está vazio. Em sua cabeça, Alex sabe que não é a melhor, mas precisa fazer tudo para tentar ser, ou quase. Quando “se encontra” no novo desafio, e define Amy Forsyth (Jamie Brill), uma remadora nata, novata como ela, como a rival a ser batida vai além de qualquer limite.

The Novice
Cortesia de Tribeca Festival

O que acontece ao redor de Alex está em lugar incerto, é apresentado de maneira dúbia. Há uma ânsia clara por reconhecimento daqueles que sequer lembram o seu nome, mas há também uma preocupação que a protagonista faz questão de não notar, ou que percebe como competição ou incompreensão. Nesse jogo, o quanto do que se vê é uma projeção da sua percepção de validação do seu lugar no mundo? Perdida em sua certeza de “ser melhor para existir”, ela cria todo um universo de convicções e pseudo-realidades.

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Hadaway, que já tem um nome estabelecido como editora de som, especialista na edição de diálogos e redublagem, e que inclusive esteve envolvida em um projeto com uma temática parecida: Whiplash, não economiza na hora de mostrar ao público todo o desgaste físico de sua protagonista. Ela cola a câmera ao corpo de Alex, acompanha os sinais de esgotamento e destaca as lesões causadas pela repetição da ação e aquelas autoinfligidas como punição pelas marcas não alcançadas. A diretora também vai além do registro e elabora graficamente a obsessão, criando quadros sombrios, de mergulho na escuridão e perda de senso da realidade. A opressão conta ainda com a acertada trilha de Alex Weston.

The Novice
Cortesia de Tribeca Festival

O invólucro, porém, é apenas o lugar bem elaborado para que The Novice tenha o seu grande ponto destacado: Alex. A personagem é o que o filme tem de mais magnético e Isabelle Fuhrmann, conhecida por viver uma obcecada patológica quando ainda criança, no terror A Órfã, faz um trabalho impressionante. Enquanto vemos seus músculos se definindo, vemos também a deterioração da remadora. À medida em que vai se afundando nos treinos e na perseguição das marcas, o modo como sucumbe aos próprios maus tratos, e como vai perdendo a personalidade para viver exclusivamente de sua fissura vão transformando-a em uma outra pessoa que passa a só estar bem integrada àqueles ambientes sinistros e sem luz da própria alienação.

Bela estreia, The Novice até tem suas inseguranças, mas atinge o seu objetivo de criar uma jornada que perturba e desassossega. Indo na direção contrária de filmes que exaltam o esforço para a excelência, sempre tão bem-vista e defendida em nossa sociedade, demonstra que há um outro lado e deixa muito a pensar.

Um grande momento
No nada

[2021 Tribeca Film Festival]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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