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Tramas do Entardecer

O que se transforma com os sonhos

(Meshes of the Afternoon, EUA, 1943)
Nota  
  • Gênero: Ficção
  • Direção: Maya Deren, Alexander Hammid
  • Roteiro: Maya Deren
  • Elenco: Maya Deren, Alexander Hammid
  • Duração: 14 minutos

… a quem perguntasse de improviso se neste momento não estamos dormindo e se não é sonho tudo o que pensamos, ou se estamos realmente acordados e entretidos a conversar

Sócrates

Existe um nome onipresente e fundamental no cinema independente de vanguarda, que conseguiu inclusive superar o comum apagamento em um ambiente tão machista que costuma não dar crédito a nada que tenha sido produzido por mulheres. Transitando pelo surrealismo e experimentalismo, Maya Deren influenciou e segue influenciando nomes como Barbara Hammer, Brakhage, David Lynch e Guy Maddin. Como alguém que sabia que podia transitar entre artes e elementos, traz a dança, o teatro, a psicanálise à tela e brinca filmando e editando repetições, movimentos, convenções e elementos não tradicionais, inesperados e nem sempre lógicos. Seu primeiro filme, Tramas do Entardecer, um marco do seu cinema e de um movimento cinematográfico é tudo isso. É o cinema de Deren, é o cinema de vanguarda e o cinema experimental, e é, também, pesadelo.

Ao adentrar no universo onírico e já com todo o seu experimentalismo, o filme busca uma alternativa à narrativa convencional e liberta o espectador. Elementos-chaves estão dispostos pela trama e são espalhados aleatoriamente, mudam de lugar, transformam-se, assim como a protagonista, que se vê, se multiplica e persegue o elemento sombrio. Deren busca o lugar do corpo em cena, o contrapõe ao ambiente, está interessada na ocupação dos espaços, uma, duas, três ou mais vezes. Ela, que interpreta a mulher, destaca detalhes, o olhar, as mãos e o corpo interagindo com aqueles elementos cheios de significados: a corrida no passeio, o vigiar na janela, a dança na cortina negra, o rastejar na escada. Na espiral intensa, independentemente do sentido escolhido, a diretora cria e sustenta a ansiedade e a tensão, acentuada com a trilha de Teiji Ito, adicionada em 1952.

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Da vida vazia

Tramas do Entardecer
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema

Um sonho é uma pequena porta escondida no santuário mais profundo e mais íntimo da alma, que se abre para a noite cósmica e primordial, que é a alma, muito antes de existir o ego consciente.

Carl Jung

Se aberto a interpretações várias, Tramas do Entardecer, como outras obras audiovisuais de qualidade indiscutível, põe em tela aquilo que cada espectador traz de bagagem de vida, compreensão individual e transforma-se junto com quem assiste ao filme à medida que o tempo passa, a depender do humor, do momento, da situação. Deren alheia-se desta responsabilidade, ela cria, experimenta e sabe que seu filme é linguagem e tem vida própria, mas depende da interação com quem ela não conhece, como eu. A eles, e a mim, uma rosa, dada por um boneco sem vida, uma manequim. A flor será tomada também por ela para a história que se iniciará, uma rosa que ali no início dos anos 1940 da Segunda Guerra era tão associada ao ser mulher e hoje tentamos tornar em símbolo sem sentido, mas ainda persiste como tal. Dividimos então o começo de tudo. Antes do sonho, eu, uma mulher, sou apresentada à mulher de Deren, criadora e criatura.

Ela segue o caminho em direção ao seu cotidiano e já é a sombra de si mesmo. Há um quê de inadequação, de deslocamento e insatisfação que a acompanha. Ela demora-se no caminho, os signos a sufocam e o sentimento é que talvez ela nem queira estar naquele lugar com a porta que não se abre, a chave que cai, a casa que não acolhe, inacessível e fria. Lá estão signos associados à violência, incomunicabilidade e uma relação que deixou de existir: a faca, o telefone, a vitrola. A mulher de Tramas do Entardecer é muitas mulheres, de antes e de agora, que estão presas em relações e em situações que a transformam em sombras de si mesmas. A identificação se concretiza, se não no todo, em parte.

Desejos inconscientes

Tramas do Entardecer
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema

Há tipos de situações e de figuras que se repetem freqüentemente de acordo com seu sentido

Carl Jung

Quando se entrega ao sonho, Tramas do Entardecer mergulha no delírio e no desejo, desafia o sentido lógico e cria sua própria dinâmica. Um novo personagem surge para dividir o espaço com a mulher e levar o filme a dois lugares: ao suspense ou, talvez, terror psicológico, e à concretização. Ela persegue aquele corpo tão identificável por ter o rosto de qualquer um e fazer o caminho de todos, e volta sempre ao mesmo lugar. Quando Deren faz com que a personagem repita seus passos, transforma seu filme num looping, inverte os ângulos, e substitui o lugar dos objetos, permite que o público, ou pelo menos o meu eu de hoje, encaminhe a mulher para seu destino de não mais tolerar aquele cotidiano que se repete numa existência tolhida e repleta de incomunicabilidade e violência.

Mas até mesmo na interpretação mais determinada, não há como estabelecer nada no mundo dos sonhos, até mesmo nos próprios. Eles dão indícios de nossos anseios, representam o nosso inconsciente, aquilo que desejamos sem saber, conhecemos sem conhecer. E se não houve nunca um despertar, porque a repetição se dá até então e pode ainda se estar dando, com um novo elemento, não há como afirmar que os fatos são concretos ou abstratos. Na loucura do horror e do desespero, seria ela, ao mesmo tempo, quem fere e liberta? Ou será que aquilo é só uma vontade obscura que nunca se realizou na verdade? Depende exclusivamente de quem assiste ao filme e isso que torna Tramas do Entardecer em um dos maiores filmes já feitos até hoje. 

Tramas do Entardecer
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema

Em apenas 14 minutos, Maya Deren e Alexander Hammid, seu marido, criam a representação para o universo dos sonhos e pesadelos. Tramas do Entardecer é experimentação, viagem, corpo, dança e liberdade de compreensão e entendimento. É um filme camaleônico, que se transforma em si mesmo. Hoje é uma coisa, mas já foi muitas outras, paixão que começa, paixão que acaba, autodescoberta, toxicidade, libertação, vazio, pelo menos para essa que aqui vos fala. E seguirá mudando, não só para mim, porque seu caráter humano e de identificação o torna perene.

Um grande momento
Olhando pela janela

O filme Tramas do Entardecer foi escolhido pela apoiadora Enoe Lopes Pontes.
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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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