Crítica | Cinema

Tromba Trem: O Filme

Uma arca moderna

(Tromba Trem: O Filme , BRA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Animação
  • Direção: Zé Brandão
  • Roteiro: Zé Brandão, Debora Guimarães, Pedro Vieira
  • Duração: 95 minutos

Esse parece ser um ano de recuperação, ao menos no que concerne aos lançamentos, para as animações brasileiras. Tromba Trem – O Filme, estreia desta semana nos cinemas, vem de uma longa tentativa de marcações e remarcações, e finalmente verá a luz do dia. É com felicidade que ao menos possamos observar uma tentativa de retomar essa parte de nossa indústria, que freou absolutamente com a pandemia, e agora pode retornar para além da produção propriamente dita. A expectativa que foi criada em torno do longa de Zé Brandão cresceu a partir desses adiamentos, e do próprio universo prévio que Brandão já adiantou ao público, através das seis temporadas da série que ele criou com os mesmos personagens no mesmo universo. 

Já na série animada, conhecemos o elefante Gajah, a tamanduá Duda e o grupo de cupins decaídos de um reino interestelar, todos unidos por um trem que viaja pelo Brasil em busca de um propósito, cada um deles. Gajah deseja recuperar sua memória perdida depois de um acidente, Duda tem uma amizade incontestável com ele e os cupins querem encontrar um dirigível que os leve a nave-mãe que os levará de volta a seu planeta. Toda essa narrativa está também no roteiro do longa, que se desdobra em busca de novas discussões, a principal delas sendo a busca vazia por reconhecimento, fama e o status que isso representa. É um tema que até poderia ser considerado adulto há algum tempo atrás, mas hoje o público infantil infelizmente já absorveu essa necessidade humana do nosso tempo. 

Tromba Trem
Divulgação

O que Tromba Trem discute, na verdade, é o lugar de cada um no mundo, sua necessidade de afirmação pessoal, de ter uma voz que ecoe além das suas cercanias, e principalmente a forma como nos relacionamos com terceiros. Nada disso é tratado como pauta central da produção, são as mensagens que estão por trás das entrelinhas de cada situação que o filme aborda, que é unida por esse grupo de personagens. Suas escolhas pessoais e o que deixamos para trás a cada decisão tomada, certa ou errada, e as consequências de nossas ações, são tratadas sem didatismo e com muito humor. Além disso, a animação beirando a psicodelia, pela união dos animais, pelos traços e pelos efeitos, dão um colorido sedutor à produção e garante seu interesse também entre os adultos. 

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Existe um problema de ritmo em Tromba Trem que impede a produção a ser mais efetiva nessa sedução. Como trata-se de um produto infanto-juvenil, o filme não pode se deixar levar por desenvolvimento muito extenso que prejudique a edição e a fruição de seus elementos. Para o adulto, o filme se abre de maneira instigante, com a relação entre aqueles personagens estranhos ganhando forma na tela; para os pequenos e não-iniciados na série, a produção deixa a desejar ao não contextualizar seus elementos e seus pontos de partida. Mais adiante, rumo ao desfecho, um excesso de eventos acaba por travar o filme, que parece rodar em círculos até chegar em seu clímax. Nada disso tem a ver com a animação em si, mas com um excesso (ou falta) de cadência do todo. 

Tromba Trem
Divulgação

Tromba Trem, aproveita sua discussão sobre busca pela fama, onde a música e a dança irrompem como elemento narrativo, e acaba inserindo números musicais que contribuem para tornar a experiência do filme ainda mais curiosa. A trilha sonora, composta por Felipe Barros, Thiago Facina, Ruben Feffer e Zé Ruivo não apenas “anima” a produção, como ajuda o espectador a chegar nos pontos buscados pela narrativa. Elas transformam essa mesma narrativa em um grupo de canções deliciosas, que ajudam o filme a avançar adiante, conquistam todos com sua melodia desconstruída e dão uma camada ainda mais cativante às aventuras vistas na tela. 

Se o espectador, grande ou pequeno, conseguir avançar sem se incomodar com esse lapso de execução, tende a encontrar um filme que se revela muito divertido. Que sua trama seja revelada aos poucos e ainda guarde um ‘plot twist’ (ao menos para quem não assistiu a série) sobre a origem do dirigível e o lugar dos humanos nessa narrativa, só coloca Tromba Trem em lugar especial. Seu pano de fundo de defesa da amizade acima de todas as coisas, o poder do companheirismo e a forma como os laços se constroem são a cereja de um bolo que serve muitas idades diversas. É um daqueles momentos onde o orgulho de ter nossa cinematografia visitando camadas tão complexas de imagem e cor são suficientes para justificar uma produção e o prazer que ela proporciona. 

Um grande momento

Gajah salva os filhotes e é saudado pela cidade

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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