Crítica | Cinema

Ingresso para o Paraíso

Avisa que é ela!

(Ticket to Paradise , EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Comédia, Romance
  • Direção: Ol Parker
  • Roteiro: Ol Parker, Daniel Pipski
  • Elenco: Julia Roberts, George Clooney, Kaitlyn Dever, Maxime Bouttier, Billie Lourd, Lucas Bravo, Murran Kain
  • Duração: 104 minutos

Vou deixar claro: esse é o texto de um crítico isento, porém absolutamente apaixonado por Julia Roberts. Desde a infância, quando Uma Linda Mulher se tornou o primeiro filme a qual eu assisti sozinho nos cinemas, o fascínio que ela causa em mim é inegável. Como atriz e como estrela, nunca deixei de perceber os pontos altos de Julia, que mesmo tendo sido indicada ao Oscar pela primeira aos 22 anos (em Flores de Aço), manteve durante anos uma certa restrição com a crítica. Era enxergada como “carismática”, termos atribuído a ela quase como uma condenação; não era, não é e nunca foi. Apesar de ser sim extremamente carismática, dona de um sorriso avassalador – sem exagero, um dos mais marcantes da História do Cinema – ela demonstra imenso talento desde cedo, que obviamente se depurou com os anos, como com qualquer ator ou atriz. Reencontrá-la é sempre uma certeza de ser correspondido em minha admiração; logo, Ingresso para o Paraíso não parte a pé.

A contrapartida também vem prévia, porque não tenho muita simpatia pelo trabalho anterior do diretor Ol Parker, a continuação de Mamma Mia!. Assim sendo, creio ter encontrado um certo equilíbrio na avaliação do filme que estreia essa semana, um mês e meio antes dos Estados Unidos – isso é raro, aproveitem. Dito isso, Ingresso para o Paraíso é exatamente do que precisa um fã de Julia (sei que não são poucos), aqueles que cresceram esperando novos Um Lugar chamado Notting Hill e O Casamento do meu Melhor Amigo. Não, o filme não é da categoria desses neoclássicos, mas é uma produção que não precisamos passar a mão na cabeça e chamar de ‘honesta’. Há muita dignidade na simplicidade que é vista e assumida por aqui.

Ingresso para o Paraíso
Universal Pictures

Esteticamente, o filme não oferece grandes desafios de realização ou uma elaboração rebuscada para Parker, mas ao mesmo tempo não se trata de uma produção realizada de qualquer maneira. Os lindos figurinos de Lizzy Gardiner (Oscar por Priscilla, a Rainha do Deserto) chamam a atenção desde sempre, do olhar local até as roupas cosmopolitas de Georgia e Paul, que criam um contraste com o país em cena. A fotografia de Ole Bratt Birkeland (de Judy) realça os contrastes de luz entre personagens e eventos, além de entregar uma delicada movimentação de câmera, que flui livremente pelos espaços dando também cadência às imagens. Se nunca pretende ser uma produção longe do que nasceu pra ser – uma comédia romântica – Ingresso para o Paraíso não engana o espectador, mas também nunca o ofende com material ordinário. 

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Voltando no tempo, a primazia das comédia românticas em sua última fase de sucesso trouxe ao menos um trio de representantes lendárias que marcaram os cinemas por pelo menos 15 anos: além de Julia, Meg Ryan e Sandra Bullock levavam qualquer um aos cinemas para conferir títulos como Enquanto Você Dormia e Sintonia de Amor. Esse tempo foi tragado pelos anos 2000, onde não existem mais astros e estrelas, mas franquias e marcas. Com a diluição do poderio e da influência de um nome puxando as bilheterias, os artistas mudaram sua relação com a indústria e com suas carreiras. Julia e Sandra se reinventaram como atrizes sérias (ainda que aqui e em A Cidade Perdida vejamos onde elas reinaram, outrora), enquanto Meg foi engolida por uma Hollywood escravizada pelo etarismo. 

Ingresso para o Paraíso
Universal Pictures

Ingresso para o Paraíso nos mostra por onde andava a Julia Roberts que explodiu no nosso colo em 1990, e porquê ela é tão absoluta no que faz nesse lugar que a lançou. Seu último filme, O Retorno de Ben, foi mais uma demonstração de seu talento dramático, mas em um espaço ingrato cinematograficamente. Eu, que comecei a escrever há 15 anos, não tive encontros com o lado maior de Julia, como crítico, e embora seu filme novo não seja “grande cinema”, ele também não se encontra em posição de subserviência. O roteiro, de Parker e Daniel Pipski, é direto ao ponto, bem resolvido na criação de seus lugares comuns, e muito bem defendido em seus diálogos. Não estamos diante de frasistas do gabarito de Woody Allen, e nem precisava ser; são falas espirituosas e cheias de bossa, mas sem qualquer verniz que tire delas a coloquialidade necessária para que acreditemos em como são funcionais. 

Não podemos esquecer, ou somos obrigados a lembrar, que Julia Roberts não estrela sozinha o filme, mas ao lado de George Clooney, seu parceiro da série Onze Homens e um Segredo. Clooney, embora mais velho que Julia, só explodiu alguns anos depois dela, e apesar de mais vitórias no Oscar (ela, Erin Brockovich; ele, Syriana e a produção de Argo), está em situação um pouco mais delicada. Vêm de um acúmulo de decepções de público e crítica, como O Céu da Meia-Noite, e precisava desse oásis. O que de fato é, já que suas filmagens foram quase inteiramente feitas em Bali, e claramente os amigos se divertem a valer em cena. Caso raro, essa diversão em excesso consegue ultrapassar a tela e atingir o espectador em cheio, que consegue enxergar a relação desgastada entre ambos, sua família formada com a talentosa Kaitlyn Dever (de Fora de Série) e as entrelinhas de sua relação. 

Ingresso para o Paraíso
Universal Pictures

É um núcleo pequeno a dessa família, mas com a intensidade pelo qual lutam de acordo com o que acham certo, e a dobradura que passa a personagem de Julia ao longo da estrutura, se degladiando com o que foi fazer em Bali, Ingresso para o Paraíso nos convence de sua narrativa. Existe uma fé cega dos pais protagonistas em promover o melhor para a filha, quando na verdade sabem que só não querem enfrentar a solidão de só terem a separação e as picuinhas para chamarem de seus. Os três conseguem passar verdade em tudo que constroem, mas é a presença de Julia que traz o encantamento necessário a esse tipo de filme, cada vez mais raro em qualquer instância. Estou falando de um projeto que destaca o que seus profissionais têm de melhor, mas também de mais leve e descontraído, espontâneo e verdadeiro; Julia está em casa, e que bom é encontrá-la, mais uma vez. 

Um grande momento

No avião, indo para Bali

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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