Crítica | Catálogo

Um Dia Qualquer

Uma produção de credibilidade

(Um Dia Qualquer, BRA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Pedro von Krüger
  • Roteiro: Bernardo Doutel, Leonardo Gudel, Victor Rosa, Pedro von Krüger
  • Elenco: Augusto Madeira, Mariana Nunes, Tainá Medina, Vinicius de Oliveira, Willean Reis, Juan Paiva, Eli Ferreira, Samuel Melo, Jefferson Brasil
  • Duração: 89 minutos

Tem um mérito particular em Um Dia Qualquer que pouco é explorado no cinema nacional, principalmente ao filme de larga escala, mais comercial, de escopo e de alcance, que é o geográfico. Ambientado em um subúrbio carioca, o filme foi inteiramente rodado nas redondezas que o filme descreve, todo cercado de propriedade estética. Sua ambientação não decorre de outra coisa que não a adequação ao cenário oficial, e acaba imprimindo ao projeto uma verdade que, por mais fidedigno que pareça, um cenário artificial não consegue abarcar. Estando nas ruas verdadeiras, a produção exala uma urgência e uma veracidade muito raras ao que chamamos de indústria, quase sempre adepta da lei do menor esforço, ou seja, nesse caso aproveitar cenários já construídos para diagramar toda sua preparação.

A veracidade conseguida nesse deslocamento é o necessário para que o diretor Pedro Von Krüger conseguisse envolver sua atmosfera em um lugar palpável, de reconhecimento concreto. Falando sobre a cultura das festas de rua (em cenas funcionais e muito realistas) como o carnaval, sobre a ascensão das milícias, sobre o refúgio da população carente em uma religião predisposta à venda, o filme tenta equilibrar suas falas coletivas. Funciona muito mais em separado do que o olhar conjunto para a narrativa, mas ao mesmo tempo esse arranhão percebido faz bem à essa estrutura. Há um sentido de tensão e perigo no ar por toda a duração, que não se limita ao presente e passado em cena, mas principalmente nas tentativas de reproduzir esse medo na mente de seus personagens. 

Von Krüger já dirigiu alguns documentários bem sucedidos (Memória em Verde e Rosa), sempre abordando um cenário periférico para defender sua leitura. Dessa vez, ele bebe na periferia de maneira ficcional, mas pretendendo centrifugar todas as suas imagens, passando-as por um corredor de verossimilhança adquirida também pela ambiência. Principalmente pela colocação com a qual a produção se comunica, recorte de um cinema que filma a marginalidade com certa crueza. Esse é outro dado positivo de Um Dia Qualquer, que adentra a realidade de zonas comandadas por líderes de facções e vivem na beira de um abismo, social e moral; ao mergulhar nesta latrina, o filme e o espectador ficam a mercê de questionamentos que o filme não se apressa em responder. 

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Um Dia Qualquer
Divulgação

A colcha de retalhos que o roteiro destrincha (de autoria de Bernardo Doutel, Victor Rosa e Leonardo Gudel) tira do filme qualquer possibilidade de ousadia, ao unir muitas narrativas em uma, ou seja, um filme coral. É a história de um entrecruzamento familiar, unidas pelo personagem de Augusto Madeira – como sempre, um grande ator. Moralmente, ninguém em cena pode apontar dedos por já terem chafurdado com vontade na marginalidade, de alguma forma. Nada disso é um problema, mas sim o molde de produção, que nem tenta puxar para si uma responsabilidade evolutiva, no cinema; as coisas são como são, e Um Dia Qualquer se apoia em outros aspectos para crescer, como a força de um elenco muito acertado em suas escolhas. 

Além de Madeira, Mariana Nunes e Tainá Medina se fortalecem graças a personagens tridimensionais, que experimentam doses de machismo, ao passo que também elas estabelecem novos códigos para suas Penha e Bruna. Do elenco jovem, Juan Paiva (de M8) não cansa de surpreender, e seu personagem aqui é ingrato, relegado a segundo plano e de desenvolvimento errático. No geral, trata-se de um elenco empenhado também na forma como essa naturalidade é mostrada, que passa por cenários e roteiro, mas chega até eles pedindo adesão. Nos lugares onde são colocados por Von Krüger, tais elementos continuam levando sua assinatura para um olhar sem escrúpulos para seus habitantes, todos vítimas e algozes de suas próprias escolhas, ainda que várias lacunas permaneçam abertas ao fim da jornada. 

Um grande momento
Quirino vai ao templo

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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