Crítica | Cinema

Uma Pitada de Sorte

Temperos confusos

(Uma Pitada de Sorte , BRA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Pedro Antonio
  • Roteiro: Pedro Antonio, Regiana Antonini, Álvaro Campos
  • Elenco: Fabiana Karla, Mouhamed Harfouch, Jandira Martini, Regiane Alves, JP Rufino, Iván Espeche, Flávia Reis, Pablo Sanábio, Daniel Belmonte, José Rubens Chachá
  • Duração: 85 minutos

Podemos chamar Fabiana Karla e esse seu “novo” Uma Pitada de Sorte de ‘one woman show’, sem medo de errar. Trata-se de um solo da atriz e comediante rodado há pelo menos cinco anos que desde então tenta encontrar uma chance de estrear, sem conseguir. Graças ao talento da atriz e de suas parcerias em cena, o filme consegue ainda sobreviver em meio ao desgaste de fórmula e de seus inúmeros problemas, principalmente de roteiro. Com alguém menos carismático e capaz, a produção dirigida por Pedro Antônio seria muito menos feliz. Ainda que não seja infalível, é graças às capacidades dessa mulher e do que o filme eventualmente faz com sua presença que o saldo final não é o do desastre, e que algo a ser dito está nas entrelinhas. 

Antônio é um diretor que tem pelo menos dois filmes no currículo que funcionam bastante, Tô Ryka! e Altas Expectativas, além de inúmeros outros sucessos. Não se tratam de títulos inatacáveis, mas são filmes cuidadosos em suas leituras de universos, na construção de seus personagens e em como filmar esses roteiros. Apesar de jovem, o diretor já construiu uma carreira em comédias populares que atentem para o lado humano, em algum ou mais de um momento, de seus plots. Não é diferente do que acontece nessa estreia nos cinemas desta semana, mas aqui esse arranjo não tem o equilíbrio visto anteriormente. As pontas soltas pelo caminho deixam a narrativa truncada, onde o espectador fica cada vez mais desconfiado do que virá a seguir. 

Uma Pitada de Sorte
Fábio Bouzas

O roteiro faz com que seus personagens caiam em contradições literalmente de um dia pro outro, como quando uma delas afirma dar carta branca a um funcionário, para no momento seguinte afirmar o contrário e tomar dele tal poder. O que chama a atenção é o filme, e não a personagem, agir como se nada acontecesse. Esse exemplo citado é uma demonstração do que não é incomum a Uma Pitada de Sorte, um filme que encontra o humor até com uma certa facilidade, mas cuja dramaturgia parece sempre emperrada. Há o talento dos atores, mas no texto de Regiana Antonini, Álvaro Campos e de Antônio existem muitas formas de sabotagem, onde suas ações parecem limitadas por uma coerência narrativa que nunca se encontra. 

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Não dá pra negar, no entanto, que esse mesmo roteiro não empodere Pérola e Fabiana, personagem e atriz. De silhueta fora dos padrões, ambas não estão nas capas de revistas que espelhem o desejo e a beleza, embora o sejam. Mas é esse mesmo roteiro com problemas estruturais que denota poder de sedução e sex appeal a uma imagem que, geralmente, não é atrelada a isso. Dois homens assediam a personagem e se interessam amorosamente por ela, sem que ela precise se transformar ou partir dela o interesse. Pelo contrário, Pérola é uma mulher muito mais conectada ao futuro e à sua profissão do que aos relacionamentos. Ou seja, é o charme natural que os conquista e arrebata, exatamente como acontece na dramaturgia às mulheres padronizadas. 

Uma Pitada de Sorte
Fábio Bouzas

Ao redor de Fabiana, um elenco acima da média principalmente entre as atrizes. Jandira Martini (de Olga), Flávia Reis (de Não Vamos Pagar Nada!) e Regiane Alves (de Isolados) estão em níveis de comprometimento variados, caminhando sempre junto à protagonista, emprestando brilho ao todo. Além delas, ainda temos JP Rufino (de Ela Disse, Ele Disse) com sua conhecida verve cômica, que não é comum para um adolescente. É a união de uma força-tarefa muito empenhada, que ainda assim não consegue fazer frente ao carisma de Fabiana Karla. Uma Pitada de Sorte não é uma experiência desastrosa, mas suas decisões não desvinculam suas ideias do campo da decepção. Pensando bem, tudo no filme poderia ser servido com muito mais apuro e dedicação, não partindo apenas de sua vontade pura e simples. 

Um grande momento

O primeiro diálogo entre irmãos

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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