Os 40 anos do projeto Vídeo nas Aldeias e a necessidade urgente de preservação de seu acervo tornaram-se um dos principais pontos de convergência das duas Cartas de Ouro Preto lançadas durante a 21ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto. Tanto o documento produzido pelo 18º Fórum da Rede Latino-Americana de Educação, Cinema e Audiovisual (Rede Kino) quanto a carta do 21º Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais Brasileiros destacam a importância da iniciativa para a memória dos povos indígenas e para a história do audiovisual brasileiro.
Na carta da Educação, os participantes celebram as quatro décadas do projeto e defendem o reconhecimento, pelo Estado brasileiro, de um patrimônio formado por mais de 8 mil horas de material bruto e mais de 70 filmes. O documento ressalta a potência do chamado “retorno das imagens” às comunidades indígenas e aponta a necessidade de garantir a preservação e a circulação desse acervo, inclusive em ambiente escolar.
A preocupação reaparece de forma ainda mais enfática na Carta da Preservação. Além de incluir uma moção específica de apoio ao acervo, o documento alerta para a urgência de ações concretas voltadas à sua proteção. Segundo os participantes, “sua importância é incontornável para a salvaguarda da memória dos povos originários e para a construção de uma história do audiovisual brasileiro que supere os apagamentos históricos e contemple a diversidade do nosso país”.
Demandas próprias
Entre as pautas específicas da área de Educação, a carta reafirma a defesa da regulamentação da Lei 13.006/2014, que prevê a exibição de filmes nacionais nas escolas, da criação de um Programa Nacional de Cinema nas Escolas e da inclusão explícita do cinema como componente curricular na Base Nacional Comum Curricular (BNCC).
O documento também chama atenção para os impactos das plataformas digitais e da inteligência artificial nos processos educacionais. “É nesse contexto que, como nos alerta Frei Betto, se torna urgente ‘restituir historicidade ao tempo’, em contraposição ao ‘presente perpétuo’ das redes digitais, que minam a reflexão crítica e a capacidade de projetar sonhos e utopias que inspirem as novas gerações”, afirma o texto.
Confira a íntegra da Carta de Ouro Preto – Educação
Já a Carta da Preservação concentra-se nos desafios estruturais do setor. Entre os pontos destacados estão a criação do curso de Preservador Audiovisual pelos Centro Técnico Audiovisual (CTAv) e Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), a descentralização do Depósito Legal, a ampliação de concursos públicos para a área e a defesa da soberania digital brasileira por meio da criação de infraestrutura pública para armazenamento de acervos.
O documento também alerta para os riscos enfrentados pela memória audiovisual em um cenário de produção crescente de conteúdos digitais. “Nunca se produziu tanto audiovisual, mas sua permanência no tempo vem se tornando cada vez mais incerta. Reafirmamos que o arquivo audiovisual é matéria viva de soberania nacional, identidade e invenção. O direito à memória coletiva de um povo deve permanecer como legado permanente e inalienável”, registra a carta.


