Crítica | Festival

Won’t You Come Out To Play

(Won't You Come Out To Play, BRA, 2020)

  • Gênero: Ficção
  • Direção: Julia Katharine
  • Roteiro: Julia Katharine
  • Elenco: Claudia Campolina, Tuna Dwek, Carlos Eduardo Valente, Bruno Perillo, Julia Katharine
  • Duração: 16 minutos
  • Nota:

Ausência. Reconexão. Laços de família e de afeto. Numa experiência provocativa, a cineasta Júlia Katherine transformou o convite para produzir e o exibir um curta no canal do YouTube do Sesc Nacional numa forma de vocalizar alguns dos cismas mais frequentes nessa pandemia do coronavirus – e na própria experiência humana.

Won’t You Come Out To Play agora inicia sua jornada em festivais, começando por Tiradentes, tornando a história de duas irmãs, nascidas em gêneros distintos e de úteros idem, enternecedora. A mais velha – interpretada pela própria cineasta, que também é atriz, como se apresenta em Lembro Mais dos Corvos – é quase uma presença fantasmagórica, acessada nas memórias da caçula, na fala do pai ausente e da madrasta, Celina, que por ela nutre afeto na mesma medida em que guarda rancor, interpretada com uma verdade surreal por Tuna Dwek.

Come Out To Play
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema

Uma história que religa Virgínia (Claudia Campolina) à Nessa (Júlia Katherine), a irmã apartada. Isolada do companheiro, dos pais, de todos, ela acessa memórias da infância. A cineasta vai linkando redes sociais a takes dos personagens vivendo a quarentena, tendo a voz de ambas como guia. Nessa, ausente de corpo desse plano, é presente em suas evocações dos traumas familiares que reverberam nos passos e hesitações físicas de Virgínia. Quem olhou pra dentro de si ou para os seus nesse período de tanta solidão, vai se perceber contemplado na dinâmica.

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Querida Prudência
Cumprimente o novo dia

São arrependimentos, amores, expiações de culpa e reafirmações de sentimentos puros que permeiam Won’t You Come Out To Play. Seja em takes feitos por uma câmera, digamos, mais profissional e um enquadramento em tripé ou gravado no celular, na câmera doa vídeochamada e incorporado de áudios – tão evocativos que se tornam linguagem como no caso dos dispositivos de mensagens – o curta traz um senso de cotidiano pulsante.

O trecho que dá título ao filme, retirado de uma das canções mais melancólicas dos Beatles, traz consigo (também na interpretação do namorado que está fisicamente distante mas sentimentalmente ao lado) um sentido de renovação em meio a tanta desesperança. A certeza de que tudo, tudo vai passar.

Um grande momento
A madrasta assumindo suas frustrações na videochamada.

[24ª Mostra de Cinema de Tiradentes]

Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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