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Yara

(Yara, LIB/IRQ/FRA, 2018)
Drama
Direção: Abbas Fahdel
Elenco: Michelle Wehbe, Elias Freifer, Mary Alkady, Elias Alkady, Charbel Alkady
Roteiro: Abbas Fahdel
Duração: 101 min.
Nota: 7 ★★★★★★★☆☆☆

Yara, novo filme de Abbas Fahdel, traz uma história congelada no tempo. Entre os paredões do belíssimo Vale do Kadisha, a jovem protagonista vive isolada com sua avó. Conversas e trabalhos cotidianos só são interrompidos por visitas esporádicas do homem que entrega mantimentos e de um outro que vem para ajudar em manutenções esporádicas. A única coisa que quebra o marasmo dessa existência é a aparição de Elias.

Em seu conto de amor, Fahdel faz questão de marcar essa noção de presente. Tudo é construído de forma a não ser possível precisar o passado da personagem principal. Quando ela chegou? Há quanto tempo está ali? Alguns detalhes sugerem que há pouco, com a primeira conversa com a avó ou o jeito como ela se veste. Do mesmo modo, não se pode ter ideia de qual será seu futuro. Haverá um futuro? Yara está presa entre as montanhas rochosas do Líbano.

Cecilia Barroso | Cenas de Cinema

O bucólico domina o filme, a câmera do diretor, que também assina a fotografia, roteiro e montagem, se atém à observação da natureza, dos animais. Cada novo detalhe tem tempo para se mostrar e transmite a quem assiste ao filme o definir da vida daquelas pessoas. O sentir-se naquele lugar pode ser belo e maçante, tranquilo e enervantemente invariável.

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Para mudar isso, entra o retrato do amor juvenil: a agitação do se encontrar no outro, do se descobrir diferente e motivado para os novos dias, para uma nova descoberta de um lugar minuciosamente conhecido. É interessante descobrir o amor como uma espécie de ilha no meio desta cidade fantasma, assim como a vida no Vale do Kadish é uma espécie de ilha no meio da realidade do Líbano.

Cecilia Barroso | Cenas de Cinema

É muito bonito o modo como essa história é construída num local onde casas estão abandonadas pela morte ou fuga de seus antigos moradores, onde a escola e a igreja do local não têm mais qualquer função social. Ora a presença do casal é engrandecida na constatação das ausências, ora é o vazio que ganha destaque frente aos dois.

O passado de abandono e ausência, do local e também das personagens, se encontra na revelação final de Elias e nas repetições conhecidas que a sucedem. Há uma consciência do que foi, principalmente na saudade, e da efemeridade. “Agora é como se nunca tivesse existido”, fala a avó sobre o pai de Yara, antes de falar que escondeu todas as fotografias do passado. O descobrir Yara no vale, a conversa e o desfecho reafirmam que não há como se encontrar algo em qualquer outro tempo que não seja o agora. Não pela ausência de um futuro, mas pela imutabilidade do que existe.

Um Grande Momento:
A conversa sobre o pai.

Cecilia Barroso | Cenas de Cinema

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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