Crítica | Streaming

Zoe

(Zoe, EUA, 2018)
Ficção científica
Direção: Drake Doremus
Elenco: Ewan McGregor, Léa Seydoux, Theo James, Rashida Jones, Christina Aguilera, Miranda Otto, Anthony Shim, Donovan Colan, Matthew Gray Gubler
Roteiro: Richard Greenberg, Drake Doremus
Duração: 104 min.
Nota: 4 ★★★★☆☆☆☆☆☆

Drake Doremus segue com sua fixação pela paixão e o amor e, mais especificamente, pela busca da representação do amor em um futuro tomado pela tecnologia. Em Zoe, explora máquinas super elaboradas, ciborgues que replicam o prazer sexual ou o afeto, e drogas que dão ao usuário a sensação da paixão. Entre as proposições do filme, talvez a mais interessante seja aquela que fala da substituição do humano nas relações, com seres e sentimentos sintéticos.

O imaginar do futuro é algo muito comum e remonta aos primórdios do homem. Se os povos originários previam o fim, com definições de seus acontecimentos, e os livros religiosos fazem o mesmo em cenários elaborados, a ficção deita e rola. Não faltam nomes para falar de futuros utópicos e distópicos, de comportamentos da sociedade e criações tecnológicas. Ficando apenas nas criações terrenas, do admirável mundo novo de Huxley aos carros voadores dos Jetsons, dos cartões de saúde do Cyberpunk à viagem à lua de Méliès, do submarino de Verne aos replicantes de Blade Runner, ou de John Connors a Immortan Joe, tudo é criação e imaginação sobre o que virá pela frente.

Mesmo não sendo o único, o curioso é a dedicação de Doremus ao explorar o futuro do amor. A existência do sentimento em meio ao avanço tecnológico é o ponto principal de Zoe, mas já esteve presente com os millenials de Newness e na distopia de Quando Te Conheci. Desta vez, nessa nova distopia imaginada, há uma busca por um sentimento que se tornou raro e toda uma indústria que lucra com isso, seja através da venda de drogas ou da produção de máquinas que reproduzem humanos perfeitos e que possam atender às necessidades sexuais e afetivas dos parceiros.

A premissa é ótima, sem dúvida nenhuma, e o modo contraditório que o diretor escolhe para ilustrar o seu futuro também. O tom esmaecido e granulado da fotografia de John Guleserian (Questão de Tempo) contrasta com toda a tecnologia exposta. Os quadros simples afastam-se da arte elaborada de alguns cenários. Percebe-se na tela a nostalgia que está na própria trama, trata-se de um tempo que busca outro tempo.

Porém, há um descontrole no roteiro que influencia claramente o filme, afeito a clichês e particularidades que não buscam a atualização ou a ousadia que a própria história exige. Embora haja dedicação por parte de Ewan McGregor (Doutor Sono) e Léa Seydoux (Azul É a Cor Mais Quente) como o casal central, algo está sempre afastando o espectador justamente pela desconexão de realidades.

Além disso, Doremus se perde na quantidade de elementos que quer inserir em seu universo. São muitos caminhos e nem todos eles conseguem a atenção devida. Se nem mesmo os protagonistas encontram direito o seu espaço, os coadjuvantes sobram perdidos, jogados na trama com funções específicas e abandonados à própria sorte quando não são necessários, como é o caso de Ash ou de Jewels.

A vontade de esmiuçar sentimentos também não funciona e o que fica impresso é apenas repetição, derrubando irremediavelmente o ritmo do filme. Se num primeiro momento isso consegue ser relevado pela criatividade com que se elaboram as soluções visuais, como a sala de resposta sonora, vai tornando-se cansativo e aborrecido. Diferentemente do esperado, após um tempo e a percepção do modo narrativo escolhido, o que se vê já não desperta um sentimento empático pelos personagens. A única coisa que se quer é uma elipse.

Embora tenha seus méritos e trate de um tema interessante, Zoe se perde de maneira tão complicada pelo caminho que não consegue alcançar seus objetivos básicos. Fica pelo potencial de Doremus, que é grande, mas precisa ser um pouco maior do que sua pretensão.

Um Grande Momento:
Na cabana.

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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