Crítica | Outras metragens

Touch

De novo isso

(Touch, EUA, 2023)
Nota  
  • Gênero: Ficção
  • Direção: Nicholas Alexander
  • Roteiro: Nicholas Alexander
  • Elenco: Nicholas Alexander, Ramsay Philips, Annabella Fazio
  • Duração: 18 minutos

O que não falta nesse mundo são pessoas tóxicas e doentes. E nem filmes sobre elas. A grande questão é: ainda precisamos ver tantas assim? E mais, cenas de violência ainda precisam ser tão explícitas? Touch recebe o espectador com a cena de uma mulher se recuperando de algo, um estupro ou um espancamento, não sabemos direito, e o curta acha que essa vai ser uma dúvida interessante para servir como justificativa para construir sua trama. 

O uso de mulheres, sejam ela esposas, filhas ou quaisquer outras, como objetos ou muletas narrativas já foi muitas vezes discutido e, embora o que acontece nesse roteiro desde seu argumento seja absurdo, não é o caso de tratarmos aqui. Pois bem, saímos de dentro daquele desespero para mudar completamente de ambiente e mergulhar em um espaço completamente masculino. A distância se recupera e o papel de espectador é bem delimitado, ali como mero passageiro, sem intimidade, acompanhando uma conversa casual de dois amigos que se conhecem há algum tempo.

Apesar dos equívocos, é preciso reconhecer que o diretor Nicholas Alexander, em sua estreia na função, sabe como trabalhar com os elementos transitando entra a aproximação e a distância, a intimidade e o estranhamento, o ódio e culpa. Também é habilidoso na criação da tensão e em como provoca o público com o tempo morto, deixando-o sem repostas entre tantas provocações que vão fazendo sentido à medida que Touch vai se desenvolvendo. O modo como se aproveita do isolamento e da contraditória hostilidade de belas montanhas geladas e cobertas de gelo também é outro ponto a seu favor.

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Porém, o que está por trás de todos os atos do curta é a masculinidade tóxica que enxerga mulheres como objetos e homens como os eternos defensores de sua honra. E não há tentativa de crítica que justifique o que se apresenta naquilo que sequer tem sentido quando olhado mais de perto. Em que circunstâncias a primeira conversa teria se dado para que a confusão de conotação tivesse acontecido? No retrato de um homem que não deveria existir, o curta acaba falhando em pontos muito essenciais e se torna velho para o seu próprio tempo. A habilidade de Alexander se comprova, mas falta a ele percepção de contexto.

Um grande momento
A espera

[19º HollyShorts Film Festival]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, Critics Choice Association, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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