Crítica | Festival

A Colmeia

(A Colmeia, BRA, 2019)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Gilson Vargas
  • Roteiro: Diones Camargo, Gilson Vargas e Matheus Borges
  • Elenco: Andressa Matos, Janaina Pelizzon, João Pedro Prates, Martina Fröhlich, Rafael Franskowiak, Renata de Lélis, Samuel Reginatto, Thais Petzhold
  • Duração: 101 minutos

Paranoia, xenofobia, folclore. Esses elementos combinados já renderam excelentes filmes ao redor do mundo, especialmente o chamado folk horror que tem como representantes obras tão distintivas como O Homem de Palha e Midsommar. Se utilizando da ameaça do nazismo que pairou sobre o mundo antes, durante e depois da Segunda Guerra Mundial, A Colmeia traduz os horrores que surgem quando uma família de imigrantes alemães no sul do Brasil sai do isolamento.

Dirigido e escrito por Gilson Vargas, o longa está na programação do Festival de Gramado e é o segundo do cineasta gaúcho, que havia feito em 2014 o metalinguistico Dromedário do Asfalto. Aqui, diferente da visão que nos trouxe Cavalo de Santo, presente na mesma mostra, temos o Sul clássico no imaginário popular, das colônias europeias e clima temperado.

O ambiente é perfeito para que A Colmeia funcione como um exercício de gênero que tem na força matriz da sua narrativa a crescente e climática construção de sentidos e representações simbólicas, a começar pelo título. Operando como uma colmeia, o grupo de imigrantes é uma família de operários (no caso, trabalhadores rurais). São quatro mulheres adultas, dois homens adultos e dois adolescentes. Os membros mais jovens do clã, – os gêmeos Christopher e Mayla – inclusive são responsáveis por impulsionar a história para a frente e são suas ações que coordenam os pontos de virada no arco dramático.

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Ele é curioso e doce, enquanto que ela é decidida e forte. Juntos, exploram o lago que fica nas cercanias da fazenda onde moram. Pelo caminho deles e dos outros parentes cruzam brasileiros, outros imigrantes alemães pouco receptivos e os “bugres” – forma pejorativa como chamavam os indígenas.

A água que purifica também releva os anseios dos gêmeos. E o fogo, o fogaréu, a fogueira e a vela possibilitam não só enxergar melhor como ter conhecimento acerca do todo. É como se parcialmente o Mito de Prometeus fosse representado no segundo ato de A Colmeia, quando os alemães, tal qual a humanidade, não pudessem voltar atrás nem recuar no caminho que resolveram trilhar, ganhando distância da obscuridade anterior.

A carne se torna, nesse ínterim, outro elemento significativo já que através dela mais fissuras se formam e não podem ser consertadas. O desejo carnal, consumado ou não, o abate e a morte do bezerro proibido, vão ter consequências profundas na configuração familiar. Como quando Mayla e Lila se afagam ou quando Mayla, numa sequência assustadora e libertadora, faz sangrar e pede ajuda ao irmão, apelando: “Nós podemos ir para qualquer lugar, só nós dois” e ele diz que não pode, levando-a a desaparecer.

Do esfacelamento do núcleo, A Colmeia se vê corrompida e tenta remediar ou evitar que novas pragas incidam. As mulheres do clã pegam tesouras e cortam os cabelos de todos e uma das outras, ato que desemboca num rompante emocional. Christopher, entre os devaneios e a sensação de perseguição e perigo quando trilha a mata, encontra abrigo numa caverna. Lá ele se depara com o afago humano que só tinha com a irmã. Reacende o calor em meio ao cinza da sua colmeia, prestes a ser desintegrada.

O zunido da Colmeia tira o sono do pai, Werther e a sanidade também se esvai. A paranoia nunca deixa de se fazer presente na casa e na mata. A Colmeia bebe do mel ou álcool fermentado para esquecer dos infortúnios, “Porque bêbados não reclamam e não vão lembrar se ficaram sem nada”. A cabeça do esqueleto do bezerro é um troféu ou um mau presságio. A mãe acredita que algo maligno se apossou da família e por isso reza. Logo ela compreende que o bezerro sangrando anuncia que mais sangue será derramado.

“Nesse mundo palavras não são nada”

O bugre é aprisionado e se encontra com as mulheres indo para a cidade. Elas, sob o estigma do nazismo e a desconfiança que paira, se reconhecem como perseguidas nele mas são ameaçadas pelo homem que o capturou. Falam alemão e se expõem ao risco. A paranoia ressurge. Pois quanto mais o desespero se apossa da colmeia mais eles demonstram no olhar e nos diálogos na língua materna que sai cavernosa, enferrujada, com temor em casa palavra proferida. O barulho cada vez mais alto da colmeia encobre os gritos. O lago de águas esverdeadas ganha uma mancha rubra. Os cabelos cortados presos nos restos de galhos das fogueiras já extintas.

Sensações de opressão, receio e libertação estão impressas na direção de Vargas e eu outros aspectos técnicos de A Colmeia, que se assemelham a mis-en-scène de O Rebanho, A Vila e O Sacrifício. O silêncio, o soturno e magnânimo da natureza são capturados e fabulados pela fotografia de Bruno Polidoro que é esplendorosa porque traz uma sobriedade barroca e uma sensibilidade em compor com a luz a partir das brechas de claridade que entram pelas frestas da casa e de outros lugares da fazenda ou mesmo na mata, além de explorar muito bem a artificialidade nas velas, fogueira e estabelecer um contrapeso com o ambiente pesado impresso na paleta de cores melancólicas.

Tão Tarkovsky é a sucessão de planos em que Mayla e Lila passam batom, refugiadas em meio as árvores – contrastando esverdeado e do musgo com o cinza das roupa e o rubro nos lábios. Outro destaque é o figurino e a direção de arte de Adriano Borba do Nascimento, acertada e minimalista para um filme de época. E o que seria do clima de espera e apreensão sem um desenho de som climático como o que é feito por Gabi Bervian, que também assina a montagem do filme. A Colmeia se materializa a partir do zumbido, dos barulhos da mata, da chuva, dos uivos dos bichos, das palmas, dos passos e ruídos fixos, que sugerem que algo espreita ou se esconde no coração das trevas.

No epílogo do conto germânico da ruína da família que tentou recomeçar no Brasil, Christopher flutua no lago enquanto os versos da canção famosa do Radiohead, “Creep”, fala em não saber o que faz naquele lugar ao qual não pertence (na versão em alemão de Leo Henkin).

Um grande momento
Dançando e revelando temores ao redor da fogueira

[49º Festival de Cinema de Gramado]

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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