Crítica | Outras metragens

O Que Há em Ti

(O que há em ti, BRA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Experimental
  • Direção: Carlos Adriano
  • Roteiro: Carlos Adriano
  • Duração: 17 minutos

“Bolsonaro, acabou. Você está recebendo mensagem no celular. Todo brasileiro está recebendo mensagem no seu celular. Você não é presidente mais. Você não é presidente mais”

Da fábula, com as roupas novas do Imperador de Hans Christian Andersen até a realidade nua e crua com o déspota que governa o Brasil, a coragem foi o combustível, a fagulha necessária para acender revoluções.

Se um desconhecido Haitiano furou o cerco de puxa-sacos em Brasília e conseguiu gritar a plenos pulmões o óbvio, que o “rei estava nu” o que faltaria para inflar a mudança no peito de cada brasileiro e brasileira? Para ir as ruas gritar contra o fascismo, o genocidio, o desgoverno cuja inoperância teve como consequência mais de meio milhão de mortes neste país para o corona vírus?

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O Que Há em Ti ensaia essa resposta enquanto filme. O haitiano que encarou Bolsonaro serve como inspiração desse curta que traz uma construção de cinema de arquivo para revelar ainda como a revolução haitiana no final do século 16 tornou o país a primeira república da América Latina governada por negros.

Imagens duras de chacinas na Ilha de São Domingos (capital do Haiti) inundam a tela em confluência com a repetição das palavras proferidas ao presidente brasileiro na capital federal no dia 16 de março de 2020. O construto do real vai sendo fabulado nessas imagens e na partilha de um desenho sonoro que traz ainda frases da música Haiti, de Caetano Veloso.

“O Haiti é aqui”

Quando Toussaint L’Ouverture comandou o novo Haiti e de líder da revolução se tornou primeiro presidente do país nem ele nem seus aliados imaginariam que teria que pagar indenização de milhões de francos à França, o que faliu o tesouro do país e o deixou aberto a nefasta intervenção norte-americana que se concretizaria no começo do século 20. Após ocupar o país de forma a instaurar inclusive uma lei de segregação racial, os EUA armaram para que Papa Doc chegasse ao poder durante a Guerra Fria e desse início a uma onda de extermínios em massa do povo haitiano. Com ele surgia a milícia tontons macoutes que ainda hoje segue chacinando milhares de pessoas, imagens essas que são marteladas em O Que Há em Ti.

Se não vemos corpos espalhados por todas as ruas daqui como ocorre nas cidades do Haiti, se eles estão profusos nas periferias e favelas mas esquecidos no noticiário o curta aproxima as realidades por meio da política. O General Heleno durante um bom tempo chefiou a missão brasileira “de paz” no Haiti, o mesmo que hoje ocupa a chefia da Casa Civil e cujas mãos estão machadas de sangue.

“E pobres são como podres
E todos sabem como se tratam os pretos”

Mas não só de dor, dos conflitos, ditaduras e chacinas se faz o recorte histórico do filme. Metaforizações Shakespeareanas se apresentam para ilustrar a importância de Paul Robeson, o “maiakovski negro”, que em 1934 planejou um filme com Sergei Eisenstein que nunca foi feito mas que representa a orgulhosa cultura da pérola das Antilhas.

Ainda que a execução fique um pouco aquém do conceito expressado, O Que Há em Ti guarda potência como ensaio fílmico.

Um grande momento
Uma esponja empapada de sangue espremida por dedos de sonho

[49º Festival de Cinema de Gramado]

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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