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A Escola do Bem e do Mal

Era outra vez

(The School for Good and Evil, EUA, 2022)
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Paul Feig
  • Roteiro: David Magee, Paul Feig, Soman Chainani
  • Elenco: Sophia Anne Caruso, Sofia Wylie, Laurence Fishburne, Michelle Yeoh, Jamie Flatters, Kit Young, Earl Cave, Demi Isaac Oviawe, Freya Parks, Kaitlyn Akinpelumi, Holly Sturton, Emma Lau, Briony Scarlett, Rosie Graham, Ally Cubb, Peter Serafinowicz, Rob Delaney, Oliver Watson, Mark Heap, Ali Khan, Patti LuPone, Myles Kamwendo, Cate Blanchett, Rachel Bloom, Kerry Washington, Charlize Theron
  • Duração: 147 minutos

Tem uma coisa sempre eficiente na hora de criar uma história: fazer com que o público se sinta familiarizado com o ambiente e os elementos que ali estão presentes. Toda vez que, em um castelo cheio de princesas, uma maçã mordida serve como objeto de decoração, a valsa de Taicovsky para “A Bela Adormecida” é escutada na transformação ou uma personagem como a pequena Kiko faz lembrar que ela pode ser a filha de Mulan, isso traz um conforto e um interesse que transformam a atenção que o espectador vai dar à obra.

Há anos somos apresentados a versões, variações e criações livres daqueles que foram os contos que fizeram parte de nossa infância. Seja oralmente, pelas páginas de escritores como Hans Christian Andersen ou os Irmãos Grimm (para ficar apenas aqui no Ocidente), ou mesmo nas deturpadas adaptações da Disney, cada uma dessas narrativas ganhou um espaço no imaginário das pessoas. A Escola do Bem e do Mal, adaptação do livro de mesmo nome de Soman Chainani, é uma dessas histórias originadas em consonância e dependência com o universo, que traz elementos basilares, como a luta entre o bem e o mal; a influência do reino encantado dos contos de fadas no equilíbrio do mundo fora dele; amizade e amor romântico; e que, além das identificações pontuais que garantam a conexão imediata, busca alguma adequação contextual, uma outra característica que acompanha a adequação da prosa através do tempo. 

A Escola do Bem e do Mal
Helen Sloan/Netflix

No filme do diretor Paul Feig, conhecido pelas comédias Missão Madrinha de Casamento, A Espiã Que Sabia de Menos e a versão feminina de Caça-Fantasmas, um novo mundo é criado aproveitando muito do que já se conhece ou ouviu falar. Em um povoado chamado Gavaldon, duas meninas muito diferentes, que normalmente estariam em espectros diferentes, se tornam amigas inseparáveis. Elas são Sophie, a aspirante a princesa, e Agatha, a aspirante a bruxa. A escola do título surge em uma conversa com a dona da livraria especializada em conto de fadas do lugar e é onde as duas vão parar como “leitoras”, uma classe especial destinada àqueles que não são descendentes naturais de suas casas específicas. 

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A trama, narrada por Cate Blanchett, se desenvolve a partir da confusão da destinação de Sophie e Agatha nas duas casas: a nunca que vai para a Escola do Mal e a sempre que vai para para a Escola do Bem não são exatamente aquelas que elas esperavam. A apresentação, do espaço e dos personagens é divertida, mesclando essa evocação de signos muito marcados em nossa memória, como fadas, lobos maus e Excalibur à crítica aos estereótipos e definições marcados pelo tempo, como na masculinidade tóxica de Tedros ou as aulas de beleza e a confrontação disso. E há figuras que surgem para questionar elementos mais relevantes, como Greg Encantado.

Isso porque, por detrás da história de amizade e deslocamento das duas protagonistas, A Escola do Bem e do Mal contesta esses conceitos, definições e todo um ordenamento secular de manutenção de aparências. É curioso quando se fala disso em estruturas tão formalmente vinculadas ao maniqueísmo, onde bem e mal estão sempre muito bem delimitados e só podem estar naquele lugar pré-estabelecido. Ainda que haja algumas facilidades no roteiro – toda a história de Rafal é muito mal resolvida, por exemplo –, o conflito que se forma é eficiente.

A Escola do Bem e do Mal
Helen Sloan/Netflix

Com uma produção de primeira linha, o visual elaborado de Andy Nicholson (designer indicado ao Oscar por Gravidade e responsável por Assassin’s Creed, A Hospedeira e outros) e os figurinos de Renee Ehrlich Kalfus (de Estrelas Além do Tempo e Chocolate), tudo é muito bonito e elaborado, embora aqui e ali os exageros de computação gráfica cansem. A trilha musical também é uma boa surpresa, com uma versão do hino pop “Toxic” muito bem colocada. Porém, são mesmo as atuações o ponto alto do longa. Ao lado dos atores veteranos, com destaque para as professoras Dovey e Lesso, vividas por Kerry Washington e Charlize Theron, sem esquecer da participação especial de Michelle Yeoh como Anêmona, as jovens Sophia Anne Caruso e Sofia Wylie são precisas e esbanjam carisma na construção de suas Sophie e Agatha, respectivamente. Ao lado delas, está um elenco de jovens talentos que, se não têm tempo para desenvolver seus personagens, têm o suficiente para mostrar ao que vieram, como ótimos momentos, como Freya Parks e sua bruxa Hester, Emma Lau e sua princesa deslumbrada Kiko, Earl Cave e seu filho de vilão pirata Hort e até mesmo Jamie Flatters e o herói Tedros.

Em um universo onde tudo é tão próximo do esperado e do conhecido, são os questionamentos de A Escola do Bem e do Mal que deixam a experiência mais interessante, o modo como ultrapassa algumas fronteiras, questiona dogmas e a maldade disfarçada nos atos do bem sem abandonar o seu lugarzinho de conto de fadas. Tem lá os seus tropeços e escorregadas enquanto obra, mas diverte e, o mais importante, cumprindo o seu papel principal.

Um grande momento
“Toxic”

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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