Crítica | Festival

A Luz de Mário Carneiro

O básico é pouco

(A Luz de Mário Carneiro, BRA, 2020)

  • Gênero: Documentário
  • Direção: Betse de Paula
  • Roteiro: Marta Luz
  • Duração: 73 minutos
  • Nota:

Conheci Mário Carneiro com O Padre e a Moça, de Joaquim Pedro de Andrade. Lembro de um plano fixo e bem aberto com Paulo José e sua batina ao longe, muita luz e uma única sombra, discreta, num canto de tela, completamente diferente da sequência que mais à frente acompanharia o mesmo padre pela escuridão, com planos alternados, uma câmera agitada. Se na primeira, Carneiro abusava do excesso de luz, na segunda aproveitava-se de qualquer resquício que tivesse dela. De lá até aqui, foram muitos os reencontros com o diretor de fotografia, sempre me impressionando com a construção de quadros, a percepção da luz, a precisão e apropriação dos elementos.

Nome de destaque no cinema novo, artista inquieto e com uma percepção estética diferenciada é frustrante vê-lo retratado em um documentário tão quadrado e antiquado quanto A Luz de Mário Carneiro, dirigido por Betse de Paula. O longa, um dos selecionados para o 53° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, cumpre o seu papel de apresentar o personagem, mas é apenas mais um documentário de arquivo como tantos outros já feitos. Ancorado em uma entrevista do próprio cineasta, falecido em 2007, que rememora fatos marcantes de sua vida, o filme vai mesclando fotos, vídeos caseiros e trechos dos filmes por ele fotografados.

Sem ousadias ou inovações, o documentário de Betse de Paula depende exclusivamente daquilo que diz seu documentado, já que não consegue estabelecer um vínculo com o público com aquilo que cria. Por sorte, os causos de Carneiro são interessantes, assim como sua paixão pela arte, e isso é o bastante para que se acompanhe o filme até o final. A pintura, sua maior teimosia desde a juventude e a frágil completude do quadro, que muda a uma mínima pincelada fora do tempo e do lugar. Carneiro passa por seus caminhos pela arte, da gravura à arquitetura, da pintura ao cinema; nesse caminho se encontra com Lasar Segall, Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Paulo César Saraceni, Joaquim Pedro de Andrade. 

A Luz de Mario Carneiro

Em suas andanças, Carneiro se encontra e se perde muitas vezes, experimenta e chama a atenção. É bom vê-lo falando de si, contando as histórias de seus desgostos profissionais e amorosos, das mágoas passadas e parcerias restabelecidas; dos equívocos e das remontagens. “A gente tem que passar por tudo nessa vida”. Melhor do que vê-lo falar é rever alguns de seus inspirados planos, o fotógrafo tinha muita sensibilidade na distribuição dos elementos, sabia capturar momentos. E se há um grande acerto em A Luz de Mário Carneiro é o título, pois habilidade com isso não faltava ao brasileiro nascido em Paris.

Enquanto fala do cinema, o pintor não deixa de lembrar de sua outra paixão, a gravura e a pintura. No abstrato expressionista, como ele mesmo dizia, tinha uma base mas não tinha um ponto final. Com suas pinturas, Carneiro gostaria de ter alcançado o lugar que alcançou com os filmes. Se há um jogo interessante entre as obras pintadas e as fotografadas, ele só existe porque está no discurso do documentado. A montagem é funcional, mas falta ousadia e aprofundamento ao conjunto, uma vontade de dar àquele discurso já interessante uma ilustração ainda mais cativante, causar a surpresa e a inovação que combinariam com Carneiro.

A Luz de Mário Carneiro tem méritos, mas parece um filme saído de tempos idos, é antiquado, quadrado e que acaba contrariando estilísticamente seu documentado. Não que seja obrigatório estar parelho, mas é difícil embarcar na viagem com cortes batidos e inserções óbvias sabendo – e ouvindo – toda a inquietação artística de quem (se) fala. Lembro de outras duas de suas composições em Porto das Caixas, essas claramente inspiradas em outros filmes: a abertura, quando, no breu da noite, o marido cruza o trilho do trem, e o encerramento, quando o casal se separa na neblina. Se vai pegar emprestado, e tem tanta coisa incrível para escolher, dava para a diretora Betse de Paula e a roteirista Marta Luz (que também assina a montagem) pensarem num formato mais cativante.

Um grande momento
A viagem a Ouro Preto.

[53º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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