Crítica | Festival

Por Onde Anda Makunaíma?

Do mito às imagens

(Por Onde Anda Makunaíma?, BRA, 2020)

  • Gênero: Documentário
  • Direção: Rodrigo Séllos
  • Roteiro: Juliana Colares
  • Duração: 84 minutos
  • Nota:

Da fantasia do escritor modernista; da mitologia indígena daqui, da Venezuela e da Guiana; dos registros do explorador alemão; das páginas, telas, palcos e sambódromo; Por Onde Anda Makunaíma? faz um resgate do trajeto desta figura fundamental das etnias macuxi, taurepang, arekuna e kamarakoto e que se tornou marcante no Brasil pelas linhas de Mário de Andrade, no livro “Macunaíma: O herói sem nenhum caráter”, lançado em 1928. O diretor Rodrigo Séllos faz um mosaico com sua busca por traços do ser, conversa com estudiosos, conhecedores, resgata anotações, imagens, impressões e vai construindo sua própria representação.

Como obra cinematográfica que é, tem um interesse especial pela imagem em movimento do herói do Andrade das letras criado por um outro Andrade, o Joaquim Pedro, um dos mais importantes nomes do nosso cinema, e vivido pelos também enormes Grande Otelo e Paulo José. E o filme começa trazendo o nascimento para cidade grande, em intervenções urbanas nas paredes dos prédios de São Paulo, numa nova modernidade, pariu-se Macunaíma na tribo dos tapanhumas. Mas o diretor opta por um começo cronológico e, depois desta apresentação, vai buscar a origem da tradição no Norte do País.

Por Onde Anda Makunaíma?
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema

Mesmo sendo uma ode à antropofagia que se acumula de Theodor Koch-Grünberg, de Mário de Andrade, de Joaquim Pedro de Andrade, de Antunes Filho, de Paulo Veríssimo, de David Correa e Norival Reis…, é em Jaider Esbell que Por Onde Anda Makunaíma? encontra o seu principal entrevistado. O pesquisador utiliza hoje três nomenclaturas que remetem a três tempos e três territórios: Macunaíma, Macunaima, e Makunaimã; o personagem da ficção, o mito geral no Brasil e o mito na língua macuxi. O indígena fala sobre a impossibilidade de analisar os impactos da obra na percepção dos brasileiros acerca da população originária, e da importância do ser na origem e sobrevivência dos povos e em sua mitologia fantástica.

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Outras entrevistas revelam a imposição de religiões evangelizadoras/colonizadoras que afastaram e modificaram muito a ligação dos indígenas com seus mitos primeiros e com suas identidades, algo já tratado em outros filmes e sobre esse ponto específico em Filhos de Macunaima, de Miguel Antunes Ramos. Aqui também nativos recontam a história de Makunaima, o desinteresse dos jovens de hoje em dia, o mito do monte Roraima e da grande árvore e uma outra faceta que não a do demiurgo, mas como a do ser que tudo cria. Além disso, o filme de Séllos se interessa pela deturpação/devastação colonizadora e em instalações artísticas que a demonstrem.

Por Onde Anda Makunaíma?
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema

Abandonando a cronologia do mito, entre lugares e espaços, mas sempre voltando a Mário e Joaquim Pedro, Por Onde Anda Makunaíma? encontra sua própria arte e, porque não, sua própria antropofagia. Além das projeções, monta quadros com fotografias, ilustra passagens do livro. Recupera Otelo conversando com a estátua de Mário e Paulo relembrando seu personagem. E é mesmo no filme que se perde, como uma segunda grande origem de parecidas e outras histórias.

Deus, trickster, demiurgo, imperador ou herói de nossa gente, Macunaíma é figura importante no imaginário popular brasileiro e Séllos consegue alcançar isso. Com uma abordagem interessante, acompanha inúmeras reelaborações daquilo que o explorador escreveu primeiro até ver dar em samba, literalmente, e sem desprezar as origens sem a interferência branca. Tem lá seus excessos, uma escolha incômoda pelos deslocamentos com drones e alguns tropeços na montagem que prolongam trechos mais do que o necessário, mas vale a pena se aventurar em Por Onde Anda Makunaíma?

Um grande momento
Heloísa Buarque de Hollanda comenta o final do filme de Joaquim Pedro

[53º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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