Crítica | Festival

A Primeira Morte de Joana

A coragem de ser

(A Primeira Morte de Joana, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Cristiane Oliveira
  • Roteiro: Sílvia Lourenço, Cristiane Oliveira
  • Elenco: Letícia Kacperski, Isabela Bressane, Joana Vieira, Lisa Gertum Becker, Pedro Nambuco, Graciela Caputti, Rosa Campos Velho, Emílio Speck
  • Duração: 91 minutos

O assumir-se homossexual ou bissexual é algo que está muito relacionado ao contar aos outros que se sente atração por alguém do mesmo sexo. Na verdade, é algo muito mais complexo, e anterior a isso, é entender e aceitar que essa é a sua — exclusivamente sua — verdade. A Primeira Morte de Joana mostra como, em um mundo heteronormativo, de costumes opressores, perceber-se lésbica e, mais do que isso, assumir para si mesma seus desejos é algo extremamente difícil. 

Dirigido por Cristiane Oliveira (Mulher do Pai), o filme tem boa intenção em sua abordagem, e parte de uma premissa interessante: traçar dois caminhos para a descoberta e compreensão de si de Joana. Paralelamente, faz um retrato da pequenina cidade no interior do Rio Grande do Sul, onde ela mora, e retrata o despertar da primeira paixão, temperada por aquela confusão hormonal que natural da idade.

A Primeira Morte de Joana
Foto: Divulgação

O fato que, de certa forma, liga esses dois caminhos é a morte de uma das tias-avós da menina. Primeiro evento do filme, ele possibilitaria ao roteiro, escrito por Silvia Lourenço e a própria diretora, falar de tudo, de uma sociedade que sufoca, desse amor entre mulheres que não se concretizou. Elas aproveitam isso por um tempo, acertam no livro, no biscuit, “talvez você deva seguir fazendo os bonecos”, mas não confiam na sutileza e acabam se entregando a uma literalidade exagerada. Embora as frases ditas sejam reais, sua disposição em A Primeira Morte de Joana soa artificial.

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Se o estabelecimento da sociedade tem suas questões, o mesmo não se pode dizer da construção da paixão de Joana por Carolina. Além do texto, a atriz Letícia Kacperski consegue exteriorizar muito bem o despertar do interesse, aquela coisa entre a culpa incutida por uma sociedade incompreensiva e a fascinação por aquela de quem não consegue mais se separar. É como olha de relance sem querer olhar para a revista que os colegas folheiam na sala de aula e como agora admira e toca no tererê de Carolina como se fosse a coisa mais linda do mundo.

A Primeira Morte de Joana
Foto: Divulgação

Com muita atenção à arte e aos figurinos, assinados por Adriana Nascimento Borba e pela dupla Mariana Collovini e Isadora Fantin, respectivamente, o filme adota texturas temporais incongruentes, a cidadezinha encontra-se parada em um tempo que parece não passar. A ambientação combina com os diálogos exagerados e tudo isso em contraposição às belas imagens do diretor de fotografia Bruno Polidoro (A Nuvem Rosa) de um exterior natural menos marcado e do moderno parque eólico, demonstram a manutenção do preconceito.

Enquanto a sensação de permanência do preconceito entristece por um lado, a libertação traz algum alento por outro. Porém, ainda assim, A Primeira Morte de Joana possibilita interpretações várias de suas próximas “mortes”, literal ou metaforicamente falando, presentes ou futuras, num país que, em maior e menor intensidade tem muito daquela cidadezinha espalhado por seus mais de 5 mil municípios. Mas em todas há aquela em que a menina deixa de ser quem é, e assume para si mesmo uma nova jovem mulher.

Um grande momento
Encontrando Carolina na estrada

[49º Festival de Cinema de Gramado]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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