Crítica | Outras metragens

Eu Não Sou um Robô

Muito mais do que precisava

(Eu Não Sou um Robô, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Ficção
  • Direção: Gabriela Lamas
  • Roteiro: Felipe Yurgel, Gabriela Lamas, Maurilio Almeida
  • Elenco: Gabriela Lamas, Maurilio Almeida
  • Duração: 17 minutos

Nas mostras nacionais dos grandes festivais, sempre há aquela vaga, ou aquelas vagas, destinadas a representantes da produção regional. Algo que está num lugar diferente da mostra dedicada apenas à títulos do local, no caso de Gramado, o famoso “Gauchão”. Embora algumas vezes a presença dos títulos seja justa, nem sempre é assim, e o que se vê deixa uma sensação de cumprimento de “acordo de cavalheiros”. Eu Não Sou um Robô, curta dirigido por Gabriela Lamas, é um desses filmes. Presente tanto no Gauchão quanto na seleção de curtas brasileiros, o filme tem uma ótima premissa, uma óbvia limitação de recursos, muita vontade de realizar, mas a real dificuldade de dizer aquilo que pretende.

O curta já chama a atenção — e a identificação do espectador — com o ponto de partida. As novas tecnologias invadiram nossas vidas de maneira avassaladora e, nos últimos tempos, sem possibilidade de fuga. A frase do título virou corriqueira na vida de todos, com uma caixinha para ser marcada e uma seta azul seguida do texto reCAPTCHA. Se tudo der errado, ou se você precisar fazer algo várias vezes, isso se transforma no inferno de várias fotos onde você a função dos não robôs é identificar bicicletas, barcos, semáforos, faixas de pedestres e hidrantes que eles gostam de disfarçar na paisagem para sacanear o humanos até que eles desistam de provar sua humanidade.

O que seria divertido, dado que estamos falando de um filme pandêmico e isso se tornou uma prática ainda mais comum, acaba tendo que se transformar pela frivolidade da própria brincadeira. Lamas encontra um caminho e mantém o interesse ao assumir a solidão que invadiu a vida desses “não robôs” a partir das notícias que começaram a assombrar o mundo em 2020 e chegaram no Brasil em março daquele ano, trancando todos dentro de suas casas. Muitos que estavam sozinhos ficaram assim por muito tempo, sem ter com quem se comunicar presencialmente.

Apoie o Cenas

Não haveria falta de recurso ou precariedade de realização que contrariasse uma premissa tão forte como essa, mas a vontade de criar uma interação, não só física, como conceitual, transformam o filme. É como se fosse necessário um elemento fantástico, algo palpável — e visualmente convincente — para que as pessoas acreditassem naquela história. Isso a enfraquece de maneira a quase anulá-la, sem falar que o andamento vai tornando-se arrastado e pouco envolvente, pela quebra que acabara de acontecer.

Felipe Yurgel, Maurilio Almeida (que faz o papel da mosca) e a própria Lamas, responsáveis pelo roteiro, vão unindo situações reais e possíveis a eventos cotidianos de uma quarentena, à vida daquela mulher nos diálogos entre ela e aquele ser, mas, por mais que o que digam interesse, a dinâmica não é funcional. Assim, Eu Não Sou um Robô é um filme de primeira metade, onde uma grande premissa ficou pelo caminho porque uma suposta grande ideia atravessou aquilo que teria muito sucesso se feito seguindo o mais antigo e sábio dos ensinamentos do mundo: menos é mais. E, infelizmente, embora quase tenha sido, não é um filme que vem para supreender na mostra nacional representando a produção regional.

Um grande momento
Marcando quadrinhos

[49º Festival de Cinema de Gramado]

Curte as coberturas do Cenas? Apoie o site!

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
Botão Voltar ao topo