Crítica | Outras metragens

Aonde Vão os Pés

(Aonde Vão os Pés, BRA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Ficção
  • Direção: Débora Zanatta
  • Roteiro: Débora Zanatta
  • Elenco: Thalita Maia, Eliane Campelli, Giovanna Negrelli, Rosana Stavis, Marcel Malê
  • Duração: 14 minutos

Tendo como produtor associado Gil Baroni, de Alice Junior, Aonde Vão Os Pés é um conto sobre o adolescer e a autodescoberta, que teve sua estreia ano passado no Olhar de Cinema. Dirigido e roteirizado por Débora Zanatta, não inova na forma mas traz uma abordagem inusitada do desejo de uma menina por alguém do mesmo gênero.

Em primeira pessoa, o curta traz na abertura fotos montagem da infância da personagem que relembra o sentimento de não ser “uma menina comum, que não gostava de maquiagem e vestia azul”. Ela cresceu e passou a andar com uma turma que também tinha meninos mas eles usavam batom. Saindo da construção imagética e de arquivo da memória dela, o cenário muda para um campinho de futebol num descampado.

Duas meninas jogam bola. Uma delas é a voz/personagem da introdução. Aonde Vão Os Pés a partir de então segue por uma narrativa com uma dramaturgia mais formal, com as adolescentes chegando num bar para jogar sinuca e beber uma cerveja – e o fato delas poderem consumir bebida alcoólica sem proibições é mais uma licença poética.

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Ali, talvez uma aflição se materialize inicialmente já que dois homens estão jogando sinuca, sendo observados pela dona do bar e uma mulher. Porém, felizmente até, Aonde Vão Os Pés está orientado para retratar o despertar da menina em relação aquela mulher, que se descobre ser uma “amante profissional” – como canta a própria no karaokê, interpretando o hit homônimo do rock nacional da Herva Doce.

Entre tacadas, goles e uma e outra tentativa de dominar o microfone, as duas meninas boleiras confraternizam com aquele grupo improvável de pessoas mais velhas num bar qualquer.

E é inusitado sim mas bem construída até a maneira com que a menina vai com a prostituta até a casa dela. Zanatta vai desconstruindo o lugar do menino que se inicia sexualmente em um bordel levado pelo pai ou parente masculino mais velho, quando duas mulheres abraçam o inesperado. E há uma singeleza na maneira com que a menina tenta acarinhar o cabelo daquela na qual está interessada, até obter um beijo ainda tímido. A confirmação da descoberta de quem ela é materializada na corrida traz ares de liberdade. Aonde Vão os Pés ainda que poderia ser esteticamente mais ousado é simples, direto e oportuno quando se enxerga a necessidade de histórias mais representativas e diversas.

Um grande momento
Fuga pela janela

[49º Festival de Cinema de Gramado]

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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