Crítica | Outras metragens

Per Capita

(Per Capita, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Ficção
  • Direção: Lia Leticia
  • Roteiro: Lia Leticia
  • Elenco: Paula de Renor, Tom Alvim, Yuri de Holanda, Mekson Dias
  • Duração: 15 minutos

Múltiplas telas enxergam carros em realidades diversas. Fabulares e documentadas na realidade, pelas câmeras de vigilância e as rede sociais. Acidentes, trânsitos. Veículos com pessoas embarcadas neles. Paris, Texas com Walt levando Travis para casa; James Spader saindo de outro acidente intencional em Crash – Estranhos Prazeres de Cronenberg; o carro com uma pedra no acelerador, avançando lentamente enquanto pega fogo no videoclipe de “Karma Police”, do Radiohead.

O cinema pernambucano é universal. E não tão somente pela experiência marcante de tradução de vários códigos do cinema Hollywoodiano em Bacurau, mas pela evolução importante que acompanhou várias gerações e segue refletida nos filmes de novas gerações como a qual pertence a diretora e roteirista Lia Leticia.

Em Per Capita ela provoca desnorteio já no prólogo onde o avançar da câmera em um lugar abandonado, no mato, avançando sobre veículos obsoletos – no que parece ser um cemitério automobilístico -, deixa no ar a intencionalidade do discurso fílmico. Pra onde vai quem não sabe mais o que quer? Quem consome até exaurir? Quem troca de carro todo o ano?

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Qual o motor para acordar?

Existir não é tão bom e simples quanto cultuar o hedonismo e viver gastando dinheiro com tudo que puder comprar – ou parcelar. O tônus de Per Capita é a avareza e a esmagadora obsessão, particularmente masculina, por carros e outros veículos como uma muleta emocional. Um objeto que os torna mais desejáveis, objetificado por Lia Leticia numa analogia imponente numa sociedade misógina e opressora. O carro do ano é como a mulher venerada, uma Paolla Oliveira com quatro rodas e injeção eletrônica.

Na miséria moral e física que afunda o Brasil bolsonarista, a renda por cabeça separa os que podem ter posse dos que só conseguem obter – seja um veículo, uma mulher ou mesmo dinheiro – desviando do caminho do bem. Per Capita joga com a degradação, o entorpecimento e a angústia de viver para ter invés de ser. No ápice, o curta traduz o conceito também transcendendo-se quando três moleques se aproximam de um carro sozinho na estrada. Aparentemente abandonado, o pobre uno é filmado, integra até uma foto selfie de seus “apreciadores” que registra o ato antes e durante.

Depredação pura e simples, metamorfoseado em abuso sexual – até com direito a uma sarrada na traseira. A angústia de uma mulher dormindo e acordando agoniada, com falta de ar, um grito calado; um dos moleques encapuzado, urinando na testa…. O carro sendo depredado, a fina linha percorrida entre a excitação e o pavor absoluto.

Twin Peaks em seu estudo sobre as múltiplas camadas da consciência, da natureza humana e dos espíritos que habitam corpos e coisas está contido como referência de Per Capita. A homenagem de Per Capita se dá não só na tessitura surreal, onírica e experimental como na composição visual e na opção por uma fotografia em preto e branco, como em alguns episódios da série em sua nova temporada que está na Netflix. Porque o despertar de um pesadelo concreto, no asfalto marcado por ilusões e sonhos fugidios é inalcançável.

Em uma sessão dupla com Carro Rei de Renata Pinheiro (também selecionado em Gramado), o filme de Lia Letícia casaria bem demais para ilustrar o torpor do consumo perante o progresso tecnológico como agente provocador da despersonalização – ou até mesmo tripla, com Titane de Julia Ducournau.

Um grande momento
Gozo no motor para o despertar

[49º Festival de Cinema de Gramado]

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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