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Águas Profundas

Uma camada incompleta de infidelidade

(Deep Water, EUA,, AUS, 2022)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: Adrian Lyne
  • Roteiro: Zach Helm, Sam Levinson
  • Elenco: Ben Affleck, Ana de Armas, Tracy Letts, Lil Rel Howery, Kristen Connolly, Dash Mihok, Rachel Blanchard, Grace Jenkins, Michael Braun, Devyn Tyler, Brendan Miller, Jacob Elordi, Finn Wittrock
  • Duração: 115 minutos

Adaptado de um romance de Patricia Highsmith, esse Águas Profundas que chega hoje no catálogo da Amazon Prime Video (e é o seu principal lançamento do primeiro trimestre do ano) é um projeto conturbado de Adrian Lyne em sua primeira direção em VINTE ANOS. Na verdade é apenas seu nono filme em uma carreira de mais de 40 anos, onde persegue um tema incessantemente: as relações familiares e amorosas a partir da infidelidade, de maneira mitificada ou não. Essa discussão está presente na maior parte de seus filmes, quase sempre de maneira aprofundada ou ao menos com a intenção de provocar uma discussão pós-filme. Aqui, apesar da base possivelmente de boa procedência, o resultado fica muito aquém de sua carreira e do que já propôs, tendo a discussão anteriormente sido mais profunda ou não.

Não se sabe ao certo porque Lyne ficou 20 anos sem filmar; o mesmo disse que foram contingências de uma indústria cheia de altos e baixos. A verdade é que seu último filme, Infidelidade, não apenas tinha sido um hit de público e crítica, como foi indicado ao Oscar. E aqui, o diretor parece partir de um apontamento nascido no longa protagonizado por Richard Gere e Diane Lane, como se agora seu olhar tratasse de um outro desdobramento para o final daquele casal. Há um objetivo na traição a partir do momento onde o jogo é jogado às claras, para o homem e para a mulher. Consentido ou não, Melinda e Vic têm uma estrutura particular que resulta em uma série de tragédias ao seu redor.

Águas Profundas
20th Century Studios

O roteiro escrito por Zach Helm (de Mais Estranho que a Ficção) e Sam Levinson (o criador de Euphoria) não parece sustentar que o casal de protagonistas elabore sua mecânica tão bem. Constantemente, as linhas narrativas correm atrás de algo que Ben Affleck e Ana de Armas já estabelecem como parceria, mas o filme não tenta esclarecer ao espectador a natureza dessa relação. Nada contra ambiguidade na arte, inclusive ela sempre é bem-vinda, mas quando Águas Profundas não situa as ações e posteriores decisões do seu quadro central, e nos despeja um sem número de coadjuvantes apáticos e sem consistência na direção da narrativa, é sinal de que a tal ambiguidade foi comprometida por valores de outras espécies.

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O filme não cria no espectador um direcionamento em relação a dinâmica entre seu casal, e suas motivações parecem variar de cena a cena, daí nasce a esquizofrenia narrativa. Em determinado momento há ciúme, para nos minutos seguintes esse elemento desaparecer; há obviamente um jogo que perpassa aquele casamento, mas porque seus peões no tabuleiro se contradizem o tempo todo, só cria uma sensação de descontinuidade na produção. Há muita suposição em cena, e isso é um dado positivo; já os caminhos arbitrários que cada um toma, criando uma ilusão negativa na trama, deveriam ser neutralizados para uma execução menos truncada. Tão bem sucedido foi em escamotear informações no seu longa anterior, que aqui elas acabaram parecendo sucateadas em um modelo sem a força dramática de Infidelidade.

Águas Profundas
20th Century Studios

Aos poucos, o jogo de sombras se torna mais claro, ainda bem distante do fim, o que resulta em diálogos inacreditáveis como o de pai e filha na banheira; essa sequência, apesar de absurda, poderia ter criado uma terceira vértice neurótica na trama, mas o filme apazigua seu vetor. O tempo todo Águas Profundas briga com uma força que deveria torná-lo mais safado, menos desavergonhado – e não estou mesmo falando de conteúdo sexual, mas de uma (des)importância com a moralidade. O filme parece não querer largar a mão de uma correção antiquada, demonstrando como fragilidade e imposição não deveriam ser marcas femininas ou masculinas, reequilibrando os gêneros. Ao invés disso, quando deseja ferozmente rasgar cartilhas para apontar caminhos menos quadrados para o casamento e sua série de desejos e fetiches idiossincráticos, o filme trava em uma necessidade de decisão que nunca coube ao diretor.

Na encruzilhada do qual não consegue sair, o filme aceita as condições de um tradicional thriller de suspense, com perseguição “eletrizante”, com uma investigação policial vazia, com personagens que nada acrescentam à narrativa mas cuja importância é valorizada como se decisivos fossem. Não é um desastre de proporções épicas que se alertava, mas é penoso ver um cineasta que nos desafiou com Atração Fatal e até com o apelativo (ainda que repleto de charme) Proposta Indecente parecer inserido dentro de um sistema onde os cinquenta tons de cinza escondem o tradicional preto e branco. Em resumo, faltou concentrar seus personagens e olhar dentro de suas psiques, e não sair correndo para apimentar o tradicional suspense norte americano de sempre.

Um grande momento
A queda do barranco

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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