Crítica | Festival

Ainda Há Tempo

Melodrama retorcido e distorcido

(Falling, EUA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Viggo Mortensen
  • Roteiro: Viggo Mortensen
  • Elenco: Viggo Mortensen, Lance Henriksen, Terry Chen, Sverrir Gudnason, Hannah Gross, Laura Linney, Carina Battrick, Ava Kozelj, Gabby Velis, Bracken Burns
  • Duração: 112 minutos

Estreia na direção do astro Viggo Mortensen (Capitão Fantástico e Senhores do Crime), esse Ainda Há Tempo é um projeto do ator absolutamente original – não, não leia a expressão atrelando-a à “inovador”, e sim a “sem qualquer material prévio ou assinatura de outrem envolvidos”. Chama a atenção que o roteiro também assinado por ele tenha partido de inspiração particular e não de uma obra externa, porque sua temática progressista soa deslocada com a abordagem sem assertividade do ator. Ainda que suas intenções sejam obviamente louváveis, o arranjo final de sua estreia não entenda a subversão do melodrama de maneira orgânica.

Com inspirações que passearam pela origem do cinema melodramático dos anos 1950, a intenção de Mortensen é utilizar tais chaves para modernizar a discussão a respeito das novas configurações de famílias no mundo. Em cena, Will, um machista homofóbico representante da “tradicional família de bem” (inclusive no que é representado pelo desgaste da mesma) apresenta demência e precisa passar um tempo mais próximo do filho, um homossexual casado, recriando conflitos que o próprio testemunhou enquanto criança dentro da própria casa. Através desses códigos, o filme não consegue evoluir sua narrativa para lado algum, tendo o painel sozinho como demonstração de modernidade.

Ainda Há Tempo

Com uma montagem de recurso antiquado, trazendo a trama do passado para o presente para acentuar a relação entre pai e filho, o filme não propõe nem ao menos o clichê de tentar humanizar e/ou naturalizar as posturas de seus protagonistas. Will parece sempre alguém antipatizado, tanto no ontem quanto no hoje, e nem mesmo seu sofrimento consegue nos fazer compadecer pela sua condição; já John, o filho, é uma figura que deixou de escolher o conflito com o pai e hoje aguenta passivamente toda a sorte de impropérios ditos pelo mesmo. Ou seja, o filme não arma o conflito nem pra internalizar os personagens, nem para o espectador observar novos reflexos – é tudo muito preto no branco, sem curva evolutiva ou mesmo involutiva.

No que concerne ao desenho dos personagens na evolução de suas trajetórias enquanto transpostas para a corporificação de cada um, o filme igualmente falha, mas aí já com um olhar na direção particular de Mortensen. O intérprete de Marcas da Violência é um ator que já demonstrou seu entendimento de seus tipos em ocasiões anteriores, sendo indicado a prêmios em muitas ocasiões. Esse olhar é abrangente até seu trabalho na condução dos atores, que parece atrapalhada em boa parte do tempo, e acaba atrapalhando a fruição do todo. Temos estereótipos em cena, nos dois tempos de cena, e os atores não vão além do esperado, sempre entregando versões óbvias para cada olhar.

Ainda Há Tempo

Em especial o diretor parece ter mais empatia com a comunidade LGBTQIA+ do que entendimento de sua natureza intrínseca. O primeiro plano íntimo entre John e Eric tem uma força imagética que não volta a se repetir no filme; naquele escopo específico, o filme abertamente faz um comentário visual a respeito do melodrama, com o beijo extremamente posado do casal. Teria sido feliz observar o filme caminhar em cima dessa artificialidade, mas sua mola de interesse é comparar a relação entre um homem desastroso e seu filho, cujos embates nunca soam de outra forma que não cobertas por clichês. Clichês esses que acompanham também o figurino e o gestual de Mortensen, todo milimetricamente pensado em cena.

O título em português do filme soa até inapropriado diante do lugar para onde o filme parece remar, onde o tempo não parece ter feito bem ao seu protagonista. Lance Henriksen, um belo ator a quem o protagonismo nunca foi uma constante, ganhou um presente na forma mas cujo conteúdo não conseguiu ter o mesmo valor. Aos 80 anos, o prolífico ator de mais de 250 personagens tenta agregar verossimilhança a seu Will, mas o quadro geral de equívocos de Ainda Há Tempo não o faz se sobressair diante do material.

Um grande momento
Papai nos assiste na porta de casa

[Festival do Rio no Telecine]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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