Crítica | Festival

Caros Camaradas! – Trabalhadores em Luta

Presente em preto e branco

(Dorogie tovarishchi, RUS, 2020)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Andrey Konchalovsky
  • Roteiro: Elena Kiseleva, Andrey Konchalovsky
  • Elenco: Yuliya Vysotskaya, Vladislav Komarov, Andrey Gusev, Yuliya Burova, Sergei Erlish, Alexander Maskelyne
  • Duração: 121 minutos

Tudo é tão específico, mas ao mesmo tempo é tão genérico em Caros Camaradas! – Trabalhadores em Luta. Com seu preto e branco, sua ambientação de época e sua determinação temporal precisa, Andrey Konchalovsky traz o retrato de um evento: o Massacre Novocherkassk, mas em suas minúcias, por trás de todo o horror e na humanidade que cerca os acontecimento, fala de coisas que nunca deixaram de existir, independente de ideologia, credo ou região.

O ano é o de 1962, e o palco é uma União Soviética em crise econômica e dividida ideologicamente. Há quem defenda as políticas adotadas pelo primeiro-ministro Khrushchov e os eternos viúvos chorosos do falecido Stalin. A sociedade se vê confusa, enquanto o senso de uma liberdade inexistente emerge, a opressão nas fábricas e a escassez servem como o estopim para a revolta. No meio do caminho, estão os que estão em posição mais confortável, muitos deles antigos membros do comitê, representantes do velho regime. Ao mesmo tempo, são aqueles que não precisam se engalfinhar nas filas ou nas muvucas em busca de alimentos ou informações por ter alguma regalia, os privilegiados. E é a maior parte deles, claro, que defende os condenáveis atos que virão a seguir.

Caros Camaradas
Divulgação / A2 Filmes

Pensando no macro, Caros Camaradas! faz o suficiente para alcançar a onda reacionária que assola o mundo hoje, para mostrar não só a posição recorrente de buscar o passado, mas o apoio à resistência violenta a qualquer tipo de mudança, principalmente se ela ameaça privilégios. Porém, Konchalovsky faz mais, ele cria em sua protagonista, Lyuda, um vínculo poderoso com o filme. Não só a personalização da regalia, mas é em sua relação com Svetka, sua filha, que a dinâmica da polarização se estabelece, as duas em lados opostos que, para além de todas as dificuldades de uma relação maternal, não conseguem se ouvir e entender quando se trata de posicionamento político ou ideológico. Algo que esbarra em certezas e mantém posturas muito firmes e solidificadas, mas nunca abala o afeto.

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Ludya é quem leva o espectador para dentro do filme e é também quem faz a transição entre os dois pólos da história, ela mesma tragada por suas posições. Pedindo por um passado cruel e de morte que insiste em não enxergar, se vê atingida por ele e se desespera, arrepende-se. Caros Camaradas! fala do Massacre de Novocherkassk, mas não está longe de qualquer levante que pede a volta de antigos regimes como esses de defensores do nazismo, do fascismo, da ditadura militar ou governos do gênero. Assim como neles, têm e terão fases de ignorância, intolerância, violência e arrependimento.

Caros Camaradas
Divulgação / A2 Filmes

Entre o teatro e o cinema dos anos 1940, Konchalovsky calcula tudo o que quer mostrar. Ao conjunto que une elementos tão díspares em forma, como o ataque perturbador à construção visual do desespero de uma mãe, o diretor junta um sem número de planos frios e banais, em reuniões, conferências táticas ou cenas familiares e, ao mesmo tempo, não deixa de entrecortá-los de ousadias estéticas, nos eventos que escapam do usual, como na fuga da fábrica ou na saída da cidade. Muito do tom vem também das atuações, com destaque para a Yuliya Vysotskaya, a Ludya, com participações pontuais de Sergei Erlish como seu pai. 

Assim, Caros Camaradas! transforma o passado e traz a História para o agora. Primeiro, fazendo com que seja conhecida e, depois, reconhecida num presente que insiste em repetir. Pena que aqueles que repetem o mantra do passado, os viúvos que choram eternamente a morte de seus ditadores genocidas, assim como Ludya, são incapazes de entender aquilo que estão fazendo.

Um grande momento
Meias furadas

[Festival do Rio no Telecine]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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