Crítica | Outras metragens

Atordoado, Eu Permaneço Atento

(Atordoado, Eu Permaneço Atento, BRA, 2020)

  • Gênero: Documentário
  • Direção: Henrique Amud, Lucas H. Rossi
  • Roteiro: Henrique Amud, Lucas H. Rossi
  • Duração: 15 minutos
  • Nota:

Quando o curta documental Atordoado, Eu Permaneço Atento chega ao seu ponto, alcança relatos que já vimos diversas vezes no cinema sobre um período cruel, as torturas nos porões militares espalhados por todo o Brasil. São poucas as diferenças entre eles. Porém, se a História é genérica, ela é composta por milhares de histórias individuais, cada uma com suas diferenças pontuais.

Na tela, o jornalista Dermi Azevedo narra sua vida desde o nascimento, em Jardim do Seridó, no Rio Grande do Norte. A dupla de diretores Henrique Amud e Lucas H. Rossi dos Santos não se contenta em filmar apenas o entrevistado, e ilustra cada uma das passagens com imagens de arquivo aleatórias, elaborando um resgate poético – e nem toda poesia é feliz – de um passado, no jogo de ressignificação tão em voga no cinema mundial dos dias de hoje.

Atordoado, eu permaneço atento

Em determinado momento, as imagens aleatórias, generalistas como a História, também se individualizam com registros do arquivo pessoal. O movimento se destaca a partir da chegada à década de 1970 e representa, exatamente, o que há de particular naquilo que é narrado pelo jornalista em meio a um discurso já conhecido. Um dos imprescindíveis que lutam a vida toda, como dito por Brecht, Dermi ainda hoje é ativista pelos direitos humanos e foi um dos muitos presos e torturados no porão do Deops em São Paulo.

Foi naquele lugar em que sua história ganhou os contornos tão pessoais e, ao mesmo tempo, absurdamente chocantes. o ativista é pai de Carlos Alexandre Menezes, também torturado pelo regime quando tinha apenas 1 ano e 8 meses de idade. O acontecimento é conhecido publicamente. Cacá, como era chamado pela família, foi levado aos porões depois de ter apanhado em casa e lá ficou por um tempo, até ser devolvido aos avós, jogado no chão como uma coisa. Depois de uma vida com transtornos psiquiátricos, em 2013, suicidou-se.

Atordoado, eu permaneço atento

A imagem de Dermi, debilitado pelo estágio já avançado do Parkinson e carregando dores insuperáveis, é triste e a escolha dos diretores pelo preto e branco acentua isso, além dos planos mais fechados no estrevistado entrecortados por cenas de guerra, uma abordagem talvez expositiva demais. Nas palavras ouvidas, uma possibilidade de imaginar como é para alguém que já passou por tudo isso ver a História se repetir, assistir a toda uma movimentação civil surgir após uma equalização nos direitos e trazer com ela a definição de mitos, a perseguição a qualquer ideologia que não a agora defendida pelo Estado, o retrocesso e o ódio.

Não poderia ser colorido, não poderia ser de outro jeito e nem ter outra duração, afinal de contas, é uma História que se nega justamente para que um novo regime se estabeleça. Por mais que centenas de filmes falem sobre o tema, parece que todos eles não foram capazes de se fazer entender. É preciso, portanto, ser incisivo. No mais, só Chico mesmo para dar nome ao filme e traduzir a nossa História e nossas histórias, de antes e de agora:

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

Cálice, de Chico Buarque e Gilberto Gil

Um grande momento
As pessoas não entendem o que é um regime fascista.

[48º Festival de Gramado]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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