Crítica | Festival

Baja Abaixo

Romance falido

(Baja Come Down, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Anderson Matthew
  • Roteiro: Anderson Matthew
  • Elenco: Caitlin Michael Riley, Michelle Ortiz, Abel Ortega, Lou, Bebo, Caleb Hammond
  • Duração: 78 minutos

A construção dramática e cênica de Baja Abaixo, produção norte-americana em cartaz no For Rainbow, sugere uma situação que funciona da forma como é apresentada, de maneira mais difusa possível, com uma quantidade maior do que o esperado de elipses e sugestões para situar a história de amor e reencontros de suas duas protagonistas. Ao longo da produção, essa característica começa a atravancar o entendimento geral porque suas amarras extrapolam os limites da experimentação estrutural, quando mistura tantos elementos que o filme embarca em estilização vazia e uma história cujo carisma nunca está em cena por completo, em qualquer que seja seu aspecto.

O diretor Anderson Matthew estreia no longa metragem com mais ambições do que suas capacidades poderiam alcançar, com mais pretensões do que o filme seria passível de suportar, e acaba criando uma atmosfera de fácil controle, capaz de um grau de envolvimento até elevado para o que apresenta e da forma como o faz, porém os excessos não lhe fazem bem. A história de Hannah e Charlie, um jovem casal lésbico nos estertores daquele incômodo de uma relação que sabemos não ter mais saída, é facilmente reconhecível, mas a quantidade de elementos o faz quase incompreensível.

Baja Abaixo
Divulgação

Faltou maturidade para entender não que seu roteiro era demasiado, mas que suas questões precisavam ser discutidas e vividas pelas personagens, e não serem tratadas como um assunto já resolvido emocionalmente (quando não foi) e ao espectador caber apenas assistir um sem número de tentativas, umas mais efetivas e outras bem desiludidas, de encontrar sentido em um namoro que parece se arrastar. Como esse é um quadro que provavelmente todos já passamos – ou ao menos identificamos em conhecidos próximos – o filme ganha nossa simpatia e nossa adesão, mas sem injeção de ânimo, Baja Abaixo segue sem rumo.

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As atrizes não contribuem para a melhora do quadro, não porque lhes falte talento especialmente, mas porque a produção não recheou as personagens de substância que fossem fáceis de alicerçar. Se a estrutura central nos compele a comprar o sentimento envolvido naquela relação fadada, o mesmo não pode ser dito da construção de suas quase únicas personagens. Tudo parece habitar o campo das especulações, em matéria de narrativa, porque poesias são declamadas e o filme aposta em uma “modernidade” já nada moderna – as cartelas na tela de frases de efeito como sendo de autoria de ambas, que mandam mensagens eternas uma pra outra.

Baja Abaixo
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Na atmosfera técnica, Baja Abaixo também não propicia a conciliação, pois se joga de qualquer maneira rumo a um entendimento estético absolutamente estéril e histérico, em sua tentativa de modernidade, além de uma pretensa densidade que soa sempre deslocada, até levemente ridícula. São poesias despropositadas, um clima romântico sem qualquer credibilidade, e muitos clichês a bordo de uma narrativa fria. Seus propósitos em torno de uma direção que soasse meio atmosférica, e que sublinhasse esse fim de relação através de seus pensamentos não relatados, na maior parte das vezes simplesmente não dá certo.

Um grande momento
Procurando Lou-Lou

O crítico viajou para o 15º For Rainbow – Festival de Cinema e Cultura de Diversidade Sexual e de Gênero a convite do evento

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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