Crítica | Cinema

Boca de Ouro

Preso no tempo

(Boca de Ouro, BRA, 2019)

  • Gênero: Suspense
  • Direção: Daniel Filho
  • Roteiro: Euclydes Marinho
  • Elenco: Marcos Palmeira, Malu Mader, Lorena Comparato, Thiago Rodrigues, Silvio Guindane, Guilherme Fontes, Fernanda Vasconcellos, Anselmo Vasconcelos
  • Duração: 93 minutos
  • Nota:

Nelson Rodrigues é um dos mais importantes cronistas e dramaturgos brasileiros. Com seus retratos críticos de uma classe-média doente, contaminada pela misoginia, violência, corrupção, malandragem, incomodou, provocou, revirou estômagos e ainda o faz, pois o tempo passa, mas o ser ainda é o humano. Porém, muito de sua obra está preso a seu tempo e nem sempre faz sentido se revisitado nos dias de hoje da mesma maneira como quando lido ou encenado pela primeira vez. É o caso de Boca de Ouro, filme de Daniel Filho que chega agora aos cinemas.

Escrita em 1960 por Rodrigues, a peça foi encenada pela primeira vez no ano seguinte, numa montagem não muito bem-sucedida de Ziembinski, que também vivia o pastel principal, mas chegou aos palcos outras várias vezes, sempre em abordagens muito diversas. Em 1963, chegava pela primeira vez ao cinema sob a direção de Nelson Pereira dos Santos, com Jece Valadão no papel do bicheiro Boca de Ouro e Daniel Filho como “o corno” Leleco. Este volta agora como diretor.

Boca de Ouro (2019), de Daniel Filho

O texto de Boca de Ouro é, sem dúvida, um dos mais interessantes de Nelson, pela elaboração da construção de um personagem que não mais existe. Método narrativo usual, quando depoimentos vão constituindo determinada persona, como, por exemplo, em Cidadão Kane, na peça rodriguiana, isso vem de uma única personagem Guigui, ex-amante do bicheiro. São três retratos diferentes: um quando ela pensa que ele ainda está vivo, um quando descobre que morreu, e um terceiro, quando decide não mudar a vida por isso.

Figuras usuais nos textos de Nelson, estão ali também os jornalistas, os fofoqueiros, os maridos traídos e as mulheres dissimuladas e interesseiras. Daniel Filho parte de um inesperado gore e une alguns planos bem elegantes a passagens cenográficas que lembram aquele filmes de ação de cartéis colombianos ou integrações gráficas muito próximas de coisas que já vimos do próprio diretor na televisão. Aliás, da série televisiva A Vida Como Ela É…, toda baseada na obra do escritor carioca, estão no filme Malu Mader e Guilherme Fontes como Guigui e Agenor, que há muito tempo não apareciam no cinema e estão ótimos nos papéis.

Mas o que mais incomoda no Boca de Ouro de Daniel é como ele olha as mulheres, indo além de uma abordagem equivocada no roteiro, afinal de contas, 60 anos se passaram e uma atualização seria necessária – como no recente O Beijo no Asfalto -, não cabe mais que a exposição gratuita e sem qualquer função narrativa esteja em tela. Esse tempo passou. Acabou. Então, mais do que uma abordagem antiquada, por uma não atualização textual, que existe, o filme é velho pelo modo como se comporta diante da mulher, ainda achando que a nudez embeleza a peça, e nada é mais ultrapassado do que isso.

E é isso, entre algumas ousadias estéticas, boas transições temporais e congelamentos contextuais, esse “novo” Boca de Ouro fica no meio do caminho, carecendo de um pouco mais de ambientação, digamos assim. Mas sempre tem Nelson Rodrigues com seus jogos complexos e não deixa de atrair a atenção pela demonstração de como o sentimento constrói a memória e como alguém pode ser tantos para uma única pessoa. 

Um grande momento
Muito sangue

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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