Crítica | Cinema

Era uma Vez um Sonho

Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais…

(Hillbilly Elegy, EUA, 2020)

  • Gênero: Drama
  • Direção: Ron Howard
  • Roteiro: Vanessa Taylor
  • Elenco: Amy Adams, Haley Bennett, Glenn Close, Freida Pinto, Sunny Mabrey, Gabriel Basso, Marcella Lentz-Pope, Bo Hopkins, Stephen Kunken, Dylan Gage, Tierney Smith
  • Duração: 116 minutos
  • Nota:

Talvez essa seja a pior hora para se adaptar o romance autobiográfico de um homem cis branco norte-americano e defensor da extrema direita que o mundo acompanha com horror. Se o responsável por levar a cabo essa contenda for Ron Howard (Oscar por Uma Mente Brilhante), aí pode contar que o caso é de tentativa de suicídio artística. Sem contar com ampla simpatia junto à crítica, o diretor brinca com fogo em Era uma vez um Sonho, e não surpreende que esteja observando a própria batata assar: o filme vem sendo considerado o pior de sua carreira pela crítica internacional. Obviamente, há uma boa dose de exagero.

Não significa que estejamos diante de um grande momento do diretor, mas o mesmo responsável por algo da (falta de) categoria de A Luta pela Esperança também já nos entregou o tenso Frost/Nixon – nesse novo filme, precisamos aceitar que suas escolhas imagéticas passam longe de pertencer a um grupo positivamente qualificado. Que suas cenas de embate, que são muitas, sejam emolduradas por tiques estilísticos a designar descontrole, podemos tentar entender, mas a partir do momento que até as cenas de passagem sejam tratadas com o mesmo recurso, fica uma dúvida a respeito da idade do diretor, tendo em vista que esse tipo de marcação me remete a infantilidade.

Era uma Vez um Sonho

Esteticamente o filme parece não encontrar lugar para suas apostas quadradas e até marcadamente antiquadas, remetendo por completo ao tipo de narrativa e linguagem vigente no fim dos anos 1980 até os 1990. Não há qualquer pitada maior de invenção à produção, e parecendo mergulhado em uma leitura esganiçada sobre o material, que realça uma agudeza até os limites do suportável, é outra produção que parece talhada para o Oscar e que estreia nos cinemas 2 semanas antes de aportar na Netflix. Sem inclinação de que haja alguma burilada no produto para elevar o material, Era uma vez um Sonho nasce superado, sem assumir suas pinceladas narrativas por completo.

As acusações de “exploração da miséria humana” e “pobreza pornográfica”, no entanto, parecem vindas de uma ala da crítica que nunca viu a ignorância social de perto, que dirá a dita pobreza. Ainda que haja uma certa histeria na forma como seus personagens são mostrados, sua textura é palpável e isso provoca um certo desconforto ao espectador. Com corajosa entrega, Amy Adams e Glenn Close protagonizam cenas nada agradáveis, ainda que críveis, e me pego pensando sobre a identificação de outra fatia, que traria a tona uma origem que, assim como o protagonista, existe para ser esquecida.

Era uma Vez um Sonho

Há então uma bifurcação em Era uma vez um Sonho, filme alicerçado por ideias bem disparatadas a respeito de condução imagética e criação de personalidade na produção. Paralelo a isso, sua amostragem de um cenário que vai da promessa ao abandono ao longo de seis décadas e a forma como representa os habitantes desse mesmo universo tateia pela credibilidade, encontrando-a na maioria das vezes. Seus diálogos nem sempre soam mais que didáticos, mas o filme resolve algumas pendências se deslocando no tempo.

O saldo final desse novo produto Netflix é muito mais equilibrado do que sugere a reação inflamada que fatias da inteligentsia receberam o filme, aos brados de “pior filme do ano”, “nojento” e “repugnante” – será que a formação das pessoas que conduzem o mundo de hoje não pode ser mostrada? Nós sabemos que estão encravadas nas estranhas desses grupos a ascensão do fascismo vigente, mas sem tratar de ordem política, o filme acaba por devassá-la quase por completo, tendo em vista que seu personagem principal é um autor de sucesso que não esconde seus piores predicados publicamente. Isso inclusive cria um final alternativo à produção, que deixa de ter a felicidade de margarina alcançada para ganhar o status reacionário que o mesmo estampa nas redes sociais.

Na recém terminada Mostra SP 2020, o premiado documentário 17 Quadras olha para seu microcosmos e permite condenar aquela família ao moto-perpétuo de marginalidade ao longo de gerações, passadas e futuras (?), mensagem essa também presente em Era uma vez um Sonho desde o prólogo, onde vemos a família Vance posando para uma foto de fim de férias, que é sobreposta a tantas outras fotos, de tantas outras famílias, todas herdeiras do atraso social, emocional e comportamental ao longo dos tempos. Outra dica é dada quando a irmã do protagonista J.D. declara para a mãe que jamais gerará filhos; ora, o filme já mostrou que ela teve três no futuro. “Eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades”, né Cazuza?

A tentativa de fuga de J. D., que detesta o ambiente em que nasceu e cresceu, e sua vontade intrínseca de cortar laços (e o filme nos mostra porque) não tira dele tudo que ele abomina, que reside em si mesmo. O extracampo prova a teoria do filme, quando J.D. Vance provoca compreensíveis ondas de ódio com suas opiniões. É o ciclo vicioso que Era uma vez um Sonho denuncia mostrando dia a dia que ainda não se fechou, infelizmente.

Um grande momento
A calculadora

Fotos: Lacey Terrell/NETFLIX

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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