Crítica | CinemaDestaque

Cidade Pássaro

A cidade que te engole

(Cidade Pássaro, BRA, FRA, 2020)

  • Gênero: Drama
  • Direção: Matias Mariani
  • Roteiro: Chika Anadu, Francine Barbosa, Maíra Bühler, Matias Mariani, Júlia Murat, Roberto Winter
  • Duração: 102 minutos
  • Nota:

Estar em São Paulo é uma coisa difícil de explicar e entender. É uma cidade que te acolhe e te repele ao mesmo tempo, multidão e solidão, tudo e nada. Lembro de quando cheguei naquele mundo novo não como visitante, mas como moradora, a cidade parecia ter se transmutado para me receber, mas aqueles de quem me aproximei, estranhamente, eram todos de fora também, fenômeno curioso que percebi comum com todos os que chegavam depois de mim, e que leva um tempo para mudar. Esse é um dos detalhes em Cidade Pássaro, esse refúgio dos que encontram ali o seu lugar e, também, o seu não-lugar. Uma certa rede de proteção dos que vem de fora, talvez.

O filme do paulistano Matias Mariani (diretor do belo A Vida Secreta dos Hipopótamos), fala dessa relação do homem com a cidade, da influência do ambiente em seu comportamento social, mas fala também de laços rompidos, buscas por um passado perdido que não tinha mais como se realizar. Esse movimento e a relação com a metrópole se concretizam na figura de Amadi, que busca seu irmão Ikenna, um sonhador que se perdeu em delírios matemáticos de apostas perfeitas, música e criou uma vida inexistente para aqueles com quem não mais convivia.

Cidade Pássaro

A chegada de Amadi, vivido por O.C. Ukeje, é muito emblemática. O passear por aquele mundo que não seria menos estranho em qualquer lugar do mundo, mas que chega na tão marcante Galeria do Rock e as curvas verticais de um Alfredo Mathias claramente influenciado por Niemeyer. Um lugar que parece um abraço e ao mesmo tempo é uma síntese de uma história, abandonado pelas lojas glamourosas quando os shoppings centers invadiram a cidade.

E o jovem, em sua busca pelo laço familiar apresentado no começo do filme, ainda na Nigéria, a procura de um irmão que mandava cartas fantasiosas para a família, vai criando novos laços, alguns do próprio Ikenna, como se quisesse encontrar um pouco dele em Miro e Emília, mas acabasse se encontrando. Outros próprios, como o tio Ogboh servem como uma espécie de guia e retorno, como um ponto de retorno ainda que distante. Mariani sabe costurar esses elementos e usa muito a cidade como elemento fundamental para essa definição das relações.

Cidade Pássaro

Nesse falar de descobertas, reencontros e desencontros, fala de questões profundas, como desejo, pertencimento e incomunicabilidade. Há momentos muito inspirados em Cidade Pássaro, como a divertida passagem no karaokê quando Amadi acompanha apaixonado a performance de Emília e o sorriso do tio vai se desfazendo aos poucos à medida em que ela canta “Por que você não vai embora de vez?/Por que não me liberta dessa paixão?” O filme tem uma virada inesperada fora do plano “Por que você não diz que não me quer mais?/Por que não deixa livre o meu coração?”

São pequenas surpresas que Mariani vai deixando pelo caminho e que contrastam com a vastidão que é toda aquela cidade pássaro que engole alguém que chega para reencontrar um passado que já não existe e, quem sabe, reconstruir um futuro que não tem a menor ideia de como será. Um lugar que recebe de um jeito estranho, junta todos os outros que se sentem da mesma forma, mas vai se entranhando em você de um jeito que não quer te deixar ir embora, porque você nunca mais será a mesma pessoa que ali chegou.

Um grande momento
“Você me Vira a Cabeça”

[44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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