(Dogman, FRA/ITA, 2018)
Drama
Direção: Matteo Garrone
Elenco: Marcello Fonte, Edoardo Pesce, Nunzia Schiano, Adamo Dionisi, Francesco Acquaroli, Alida Baldari Calabria, Gianluca Gobbi, Aniello Arena
Roteiro: Ugo Chiti, Massimo Gaudioso, Matteo Garrone
Duração: 102 min.
Nota: 9 ★★★★★★★★★☆

A construção da tensão em tempos e silêncios. É no universo irrepreensível de personagens e situações que Matteo Garrone, em seu novo filme, confirma sua habilidade como carpinteiro do que se ouve e vê. O filme é Dogman, que traz uma versão de um chocante e famoso crime real na Itália e, com muita liberdade poética, constrói as personalidades daqueles que nele estavam envolvidos e o modo como se desenrolaram as situações.

O crime do canaro – como são chamados os cuidadores de cachorros no dialeto romano – aconteceu no final dos anos 1980 e tem mais de uma versão tenebrosa sobre o assassinato. Elas não interessam a Garrone. Para ele, que demarca sutilmente o tempo, muda nomes e escolhe um outro lugar para filmar sua Magliana, região periférica de Roma onde o crime aconteceu, o mais interessante é o que há de humano por trás de sua história.

Numa construção que demonstra muito de sua erudição, com a criação de um ambiente e personalidades que parecem saídas das páginas de uma obra de Dostoiévski, o diretor expõe a relação abusiva de dois amigos viciados em cocaína. Seu Marcello, o cuidador e cabeleireiro de cachorros, é amigável e sociável e parece sempre disposto a ajudar. O carinho com os animais, o sorriso sempre no rosto e uma introspectividade notória em feições e gestos criam uma simpatia quase instantânea.

Sentimento inverso é provocado por Simoncino, o amigo abusivo, completamente alterado pelo vício. Suas poucas palavras e a postura bruta afastam e desagradam. Algo que Garrone amplifica com a pouca exposição do rosto e planos que privilegiam a amplitude das agressões. Há em Simon, apelido pelo qual Marcello o trata, mais um dos animais gigantes e nervosos com os quais o cuidador precisa lidar diariamente.

É nessas diferenças entre as duas personalidades que a construção da tensão encontra seu ponto mais forte. Há toda uma preocupação para a intensificação do sentimentos na concepção estética, com o ressaltar daquilo que não se pode ver, mesmo que dentro do plano, e do que se escuta e não se enxerga.

Tudo prepara o espectador para o clímax do filme, a hora da execução, em uma cena frenética e ansiosa, quando se expõe um lado do protagonista que o espectador não estava preparado para ver, mesmo que ainda ali se perceba um olhar generoso, tanto nas diferenças entre evento real e fictício quanto na complacência com o próprio personagem em momento de desequilíbrio.

O controle de Garrone é notório, não só na construção inspirada e detalhista da tensão, mas também na condução dos atores, algo já percebido em filmes anteriores como Gomorra, onde amadores e não-atores se destacam. O trabalho de Marcello Fonte, como o canero Marcello, é algo surpreendente e fundamental ao filme, tanto que o rendeu o prêmio de melhor ator em Cannes. Aliás, uma grande cena de Dogman é a do depoimento, onde ele e o policial interpretado por Aniello Arena, protagonista de Reality, interagem.

Cinema puro mesmo em sua mais simples cena, Dogman é um filme que vai grudar o público na cadeira e ficar em sua cabeça por um bom tempo.

Um Grande Momento:
O depoimento.

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8½ Festa do Cinema Italiano