Crítica | Festival

Eu, Empresa

Nós, produtos

(Eu, Empresa, BRA, 2021)

  • Gênero: Drama
  • Direção: Leon Sampaio, Marcus Curvelo
  • Roteiro: Amanda Devulsky, Camila Gregório, Leon Sampaio, Marcus Curvelo
  • Elenco: Marcus Curvelo, Carlos Baumgarten, Aristides De Sousa (Juninho Vende-Se), Mariana Rios, Carol Alves, Thiago Almasy, Ritah Oliveira, Felipe Pedrosa, Rachel Sauder, Gaba Reznik
  • Duração: 82 minutos
  • Nota:

Joder é cara de uma fatia cada vez maior da sociedade hoje, em qualquer parte do mundo. Criação de Marcus Curvelo, seu alter ego é constante em sua obra, borrando as tarjas que definem ficção e realidade e conectando criador e criatura em uma só figura, a um só tempo um espelho da melancolia, do deslocamento, da solidão e do despreparo emocional e profissional de uma faixa que vai dos 25 aos 40 anos, hoje. Joder agora chega ao longa metragem em ‘Eu, Empresa’, estreia no formato tanto de Curvelo quanto de Leon Sampaio, que junto dele reconfigura esse personagem em uma abordagem externa ao discurso que ele já apresenta anteriormente, aqui amplificado. 

Não dá pra atribuir leveza ao longa sem atrelar ao mesmo uma característica errada de falta de comprometimento ao resultado final, mas quem já conhece o trabalho de Curvelo (que estava também em Tiradentes com ‘A Destruição do Planeta Live’, onde Joder aparece mais depressivo que nunca, graças a clausura provocada pela pandemia) sabe que seus filmes nunca abriram mão de colocar o dedo na ferida social sobre a incomunicabilidade mais comum na atualidade, aquela que não ouve a própria voz. O personagem segue ouvindo a todos com muito desvelo, menos a si mesmo, o que talvez mitigasse alguns de seus problemas. 

‘Eu, Empresa’, embora centrado em um protagonista e ter uma espinha dorsal muito demarcada, é mais do que um filme auto centrado, porque Joder é porta-voz de uma geração, fala por ela, se contamina de seu discurso, e acaba por discutir essa ode ao empreendedorismo que o neoliberalismo criou, onde todos somos pessoa jurídica de nós mesmos. Apesar de gravado pré-pandemia, o filme ganha reverberação extra ao conseguir acessar um lugar comum nascido antes da tragédia, mas que se aproveitou dela: o sucesso está ao alcance das nossas mãos; como desenvolver isso numa sociedade que corta as mãos de seu povo?

Desprovido do ideal romântico que também é uma característica do personagem, apartado de sua cobrança emocional, aqui Joder é transformado numa máquina de realizar, e precisa se conectar com o admirável mundo novo ao seu redor. O filme coloca então Joder/Marcus (Marcus/Joder?) em contato com inúmeras formas de ‘self-made’ hoje, dos temidos ‘coachs’ aos motoristas de aplicativos, dos criadores de conteúdo digital aos entregadores informais. Aos poucos, esse homem central – que é tão Joder quanto Marcus, e provavelmente sendo um amálgama de ambos, acaba perdendo identidade também e tornando-se uma terceira pessoa – mostra ao espectador que suas demandas estão embaralhadas; não há como ser patrão se fomos gerados para sermos empregados. 

Em encontros que agregam documentário à ficção (uma ficção bem pouco usual, onde o documental tem passeio livre), o protagonista experimenta a ‘uberização’ do trabalho no que isso tem de mais literal. Em entrevistas com entregadores, em relatos de influenciadores, em encontros com uma profissional de direcionamento profissional, o tal Joder (ou seria o Marcus?) cria pra si um universo de discussão a respeito de espaços sociais de privilégio acessados por pessoas à margem dos mesmos. A quem o empreendedorismo beneficia, e a quem deveria beneficiar? Com sutileza e uma dose de humor que Joder nunca tinha acessado antes tão profundamente, o filme parece um achatamento de um olhar de Curvelo, quando na verdade, ao diminuir seu campo de observação, o personagem se agiganta. 

Curvelo e Sampaio exploram em ‘Eu, Empresa’ essa ânsia por uma crença em si mesmo, uma necessidade de afirmação e de reconhecimento que é a marca de uma geração atual que é cobrado o tempo inteiro por um sucesso pessoal. Joder parece ter esquecido momentaneamente que também bate um coração no seu peito desafinado, mas nada mais contemporâneo do que isso, um momento onde percebemos que estamos prestes a cumprir a última etapa da ‘uberização’: virarmos máquinas, incapazes de pensar fora da mecanização vigente. 

Um grande momento:

“É estranho mas é bom”

[24ª Mostra de Cinema de Tiradentes]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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