Crítica | FestivalFestival de Brasília

Fakir

(Fakir, BRA, 2019)
Documentário
Direção: Helena Ignez
Roteiro: Helena Ignez
Duração: 93 min.
Nota: 7 ★★★★★★★☆☆☆

Há muitas maneiras de chegar ao machismo nosso de cada dia. Não porque qualquer tema possa ser representado de muitas maneiras, mas porque o machismo está em qualquer lugar para onde se olhe na nossa sociedade. Fakir encontra um objeto inusitado para falar dele: espaços definidos pelo gênero. Partindo da premissa básica – e falsa – de que existem lugares que não podem ser ocupados por mulheres, explora o universo do faquirismo no Brasil.

Narrado pela própria Helena Ignez, diretora do longa, recupera por meio de matérias jornalísticas o auge da atividade, na qual os faquires passam dias sem comer fechados em caixões de vidro e deitados sobre uma manta de pregos. É na chegada das chamadas faquiresas que o filme se interessa mais. Aquelas mulheres, muitas delas influenciadas por seus maridos, ingressavam no mundo da fome em troca de fama e dinheiro. É a entrada da mulher na atividade, no modo como isso é noticiado e visto pela sociedade da época, que está o ponto chave de Fakir.

Fakir vai atrás da existência e sobrevivência dessas mulheres. Conta e reconta suas histórias, faz associações com nomes de grande relevância e fala sobre a força de se fazer prevalecer num universo que não está preparado para elas. São histórias tristes e de superação; histórias de afirmação em um universo que repele, não entende, não aceita e mata.

Em sua pesquisa, Helena encontra exatamente aquilo do que quer falar e não restringe o seu discurso à questão do gênero, alcançando também a desigualdade social e a maior das mazelas brasileiras, a fome. Num país onde tantos morrem de fome por falta de opção, passar fome é a escolha de outros, que fazem sucesso e dinheiro com isso.

O filme funciona muito bem enquanto arquivo narrado, mas tem excessos, principalmente nas recriações artísticas criadas para ilustrar aquilo que se descobre. Mesmo que incluam os homens em um lugar de destaque, explicitando aquilo que já era bastante óbvio, há uma quebra incômoda na narrativa. Algo que saca o espectador da experiência. Mas nada que comprometa o resultado final.

Potente em conteúdo e forma, Fakir é um documentário que vai além do que dele se espera, chegando a lugares realmente inusitados, mas que não deixam de ser velhos conhecidos de qualquer um que esteja nesse mundo e viva nessa sociedade patriarcal e tão avessa às mulheres.

Um Grande Momento:
Fichadas como meretrizes.

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[52º Festival de Brasília]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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