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Há Tanto Tempo Que Te Amo

(Il y a longtemps que je t’aime, FRA/ALE, 2008)

Ao comprar uma entrada para um filme francês, já dá para saber que a chance de ver um drama que mostre o lado duro e triste do ser humano é grande. Com raras exceções, são os títulos desta nacionalidade que marcam tanto pelo modo cru de retratar as fraquezas do homem, como por seus finais abertos que rondam o pensamento dos espectadores mesmo após a projeção.

Claro que, mesmo com todos os resultados positivos e a tradição, não são todos os títulos que conseguem causar o impacto desejado. Há Tanto Tempo Que Te Amo está no meio do caminho: tem o tema, a abordagem e um bom desenvolvimento, mas tropeça, ainda que elegantemente, em alguns lugares comuns.

Duas irmãs, Juliette e Léa, tentam estabelecer uma relação depois de quinze anos de separação. Enquanto uma vive sua vida de casada como se nada tivesse acontecido, a outra não consegue se readaptar a um mundo que parce nunca ter sentido falta dela.

Logo nos primeiros momentos, criamos uma relação de piedade e curiosidade com a personagem de Juliette. Sempre fumando, com olheiras, sem maquiagem e unhas quase sujas vemos em seu rosto que algo muito ruim aconteceu com aquela pessoa.

Por outro lado, Léa demonstra sua dubiedade através de seu olhar . Se em alguns momentos ela está feliz por estar novamente com a irmã, em outros ela se mostra insegura e não consegue esconder o medo e o desconforto com sorrisos.

Neste universo fraterno, outros personagens são muito importantes para a composição de toda a história de um passado que queremos conhecer mas não está ali. A pequena Lys traz seu carinho ingênuo; o avô, o silêncio cúmplice; Fauré e Michel o conforto.

A história leva o espectador para dentro desta realidade e vai abrindo as portas devagar para a platéia ver o que aconteceu. É assim que algumas lágrimas acabam surgindo no meio do caminho.

As atuações são fundamentais. As protagonistas estão muito bem e conseguem transmitir toda a complexidade de suas personagens. Apesar de ter um elenco muito eficiente, com boas atuações de Frédéric Pierrot, Serge Hazanavicius e da pequena Lise Ségur, alguns papéis secundários parecem não ter tido tanta atenção como deveriam.

A direção de arte de Samuel Deshors e Emmanuelle Cuillery é detalhista e traz toda a insegurança e os sentimentos reprimidos do mundo de Juliette para a cena usando e abusando da cor marrom. Sem falar nos quadros de Émile Friant.

A direção de fotografia de Jérôme Alméras também merece ser citada. A luz é sempre muito bem usada e alguns enquadramentos são maravilhosos.

Apesar de tudo caminhar na direção certa, o resultado final não parece ser tão bom como poderia e a sensação de que a edição poderia ser feita com menos apego e de que algumas cenas são desnecessárias.

O longa ganha muitos pontos por resistir à facilidade de técnicas como o flashback, mas não consegue ser convincente por todo o tempo e se atropela nos momentos mais sensíveis como a cena da visita ou a da substituição de Fauré.

Mas mesmo que tenha alguns defeitos, é um filme que vale a pena. Pela história, pela trilha sonora, pela atuações de Kristin Scott Thomas e Elsa Zylberstein.

Um lencinho pode ser necessário.

Um Grande Momento

A entrevista do primeiro emprego.

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Prêmios e indicações (as categorias premiadas estão em negrito)

BAFTA
: Filme em Língua Estrangeira, Roteiro Original, Atriz (Kristin Scott Thomas)
Festival de Berlim: Urso de Ouro, Júri de Leitores do Berliner Morgenpost, Júri Ecumênico
César: Filme, Roteiro Original, Primeiro Filme, Atriz (Kristin Scott Thomas), Atriz Coadjuvante (Elsa Zylberstein), Música (Jean-Louis Aubert)
Globo de Ouro: Filme Estrangeiro, Atriz (Kristin Scott Thomas)

Links

 

Drama
Direção: Philippe Claudel
Elenco: Kristin Scott Thomas, Elsa Zylberstein, Serge Hazanavicius, Laurent Grévil, Frédéric Pierrot, Jean-Claude Arnaud, Lise Ségur
Roteiro: Philippe Claudel
Duração: 115 min.
Minha nota: 7/10

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.

Um Comentário

  1. Sabe qual seria o grande momento pra mim? A cena do telefonema do médico e a narração da filha. Arrepie e só não tirei o chapéu por que não uso. Filme maravilhos, o exemplo perfeito do que mais me agrada, e que mais me assuta quando penso em escrever sobre.

    Imperdível.

  2. Todo mundo falando muito bem desse longa, inclusive parece ser um dos mais emocionantes do ano.
    Quero ver especialmente pela elogiada atuação da Kristin Scott Thomas…

  3. Hehehe. Aproveitando o Panorama do Cinema Francês, né?
    Agora vai ser cinema fantástico, no SP Terror, e documentários musicais, no In-Edit.

    Beijocas

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