Crítica | Outras metragens

Laudelina e a Felicidade Guerreira

O que não pode ser simplificado

Laudelina de Campos Mello é uma dessas presenças que resistem ao apagamento não por acaso. Empregada doméstica, militante negra, presença política, ela funda, em 1936, a primeira associação de trabalhadoras domésticas no Brasil e passa a articular direitos, formação e consciência coletiva em um campo marcado pela exploração silenciosa e pela permanência sistemática da escravidão. Olhar para a história desta mulher é também encarar aquilo que ela carrega: trabalho, raça, desigualdade, luta e permanência.

Laudelina e a Felicidade Guerreira, de Milena Manfredini, parte desse lugar sem recorrer à simples homenagem, aproximando-se da trajetória a partir da compreensão de que ela não pode ser organizada de forma básica, já que a história não vem pronta e precisa ser buscada, atravessada e reconstruída. A pesquisa deixa de ser apenas base e se transforma em movimento, e a investigação de Milena ao longo de anos não surge na tela como informação acumulada, mas como matéria viva que contamina a forma.

A Laudelina que surge em cena é convocada para estar ali, e não simplesmente apresentada. Entre falas resgatadas, arquivos recriados, fragmentos de memória e a presença da atriz Juliana França, o curta constrói um jogo em que atuação e recuperação se misturam continuamente. A consciência da impossibilidade de transparência está presente, já que o próprio gesto de recriação carrega em si a percepção de que algo se perdeu e de que toda aproximação é também uma tentativa incompleta.

Esse movimento impede que a vida de Laudelina seja reduzida a uma sequência de fatos e feitos, porque o que precisa estar ali é o impacto das suas ações e a forma como elas reverberam e se infiltram no presente, fazendo com que a política não apareça apenas como discurso externo, mas como prática inscrita no corpo e nas relações. A tensão que se estabelece entre o que foi vivido e o que pode ser imaginado a partir disso é sustentada pelo filme do início ao fim.

Formalmente, essa escolha se desdobra em uma inventividade que nunca soa gratuita, com uma montagem que costura tempos e registros distintos e cria um ambiente em que passado e presente se atravessam sem hierarquia. Os cortes deixam de organizar para provocar e a repetição aparece como insistência, mostrando que se certas imagens e sons precisassem retornar ou se duplicar para que algo finalmente se fixe. O som acompanha o movimento e constrói um campo sensorial em que o incômodo permanece.

Há, ainda, um cuidado evidente em não transformar a complexidade em ornamentação. O visual é magnético, mas não busca suavizar a história que conta e trabalha justamente para dar forma a algo que não se deixa simplificar, fazendo com que mesmo as informações mais sensíveis entrem nesse fluxo sem isolamento, entrelaçadas a gestos, corpos e texturas, em um movimento que entende que ilustrar é tensionar.

O resultado é um curta que se move entre o rigor e a invenção sem perder de vista o que o sustenta. Laudelina aparece como figura histórica incontornável e, ao mesmo tempo, como presença que ainda exige elaboração. O cinema de Milena Manfredini não tenta resolver, assume como condição. Ao fazê-lo, encontra uma forma de lidar com a memória que não domestica, mas mantém em estado de luta.

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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