Crítica | Festival

Listen

Inglaterra que leva os miúdos

(Listen, POR, GBR, 2020)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Ana Rocha de Sousa
  • Roteiro: Ana Rocha de Sousa, Paula Alvarez Vaccaro, Aaron Brookner
  • Elenco: Lúcia Moniz, Sophia Myles, Ruben Garcia, Maisie Sly, James Felner, Kiran Sonia Sawar
  • Duração: 73 minutos

Eu vou colapsar, sucumbir
Perante um desespero gigantesco
Já que minhas preces não foram atendidas
E que há ausência em toda a parte
Toda a gente
Me deixem respirar à vida
(Escutem)

Aguça a percepção quando a comunicação truncada, a opressão e a inadequação gritam mas ninguém ouve. Quando quem está falando é “ninguém” aos olhos de quem vê, não tem direitos por ter migrado para um país buscando uma vida melhor e menos ordinária. Mais feliz. Por si e pelos filhos. Esse é o mote de Listen. No filme, Bela (Lúcia Moniz, de Simplesmente Amor) e Jota (Ruben Garcia) são imigrantes portugueses em Londres. Vivem com os três filhos, o mais velho de 12 anos e o mais jovem de 12 meses. Dentre estes está Lu, a do meio, que tem perda auditiva e frequenta uma escola para crianças surdas.

A tragédia familiar começa por algo banal, estúpido e deprimente: o aparelho auditivo de Lu dá defeito e na ânsia de consertar – já que para comprar um novo não tem como -, Jota quebra de vez o aparelho. Acompanhamos não em tempo real, mas na reclamação de Lucia (ela cobra Jota e desconfia dos ingleses, do governo e de todos, pois teme em demasiado o serviço social pois sabe da perseguição e da lei da adoção forçada); ficamos concentrados, escutando os diálogos – hora em português e em inglês – entre eles e com ingleses.

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Jota está afastado do trabalho como carpinteiro e esperando receber pelo mês trabalhado. Ele fica em casa cuidando de Diego, que tem faltado às aulas pelo que parece ser um resfriado, enquanto Bela vai com Lu e o bebê Jessy para a rua. Ela deixa a filha na escola (sempre atrasada), não sem antes “afanar” o café da manhã no carrinho da bebê e ir trabalhar limpando casas. Ela sabe como é difícil andar na linha, por isso evita cruzar olhares com toda e qualquer pessoa. Mas Lu acaba tropeçando na hora do recreio e a professora descobre que o aparelho auditivo dela não funciona é uma reação em cadeia se forma: a criança está com marcas pelo corpo.

Listen (2020)
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema Cortesia Mostra SP

Distribuído globalmente pela gigante Magnolia Pictures (que teve êxito com Assunto de Família do Kore-Eda) Listen tematiza a Children Act, lei britânica de 1989 que agilizou os supostos mecanismos de proteção as crianças e adolescentes, nomeadamente de adoções forçadas. Segundo reportagem investigativa do periódico português VISÃO, publicada em julho de 2016, o departamento britânico de educação acompanha e faz a contabilidade acerca das situações das crianças em risco. Os últimos dados oficiais, e que reportam a março de 2015, mostram que no espaço de um ano 31.100 crianças foram ‘capturadas’ por um sistema que tem hoje mais de 69 mil menores aos seus cuidados – o número mais alto das últimas três décadas. Nesse mesmo ano, 5.050 crianças foram reencaminhadas para famílias adotivas num processo irreversível em 96% dos casos.

A tessitura delicada na visão autoral de Listen que denuncia não sem deixar de magoar a nossa pele, visão, audição ao experienciar esse filme de Ana Rocha de Sousa, produzido pela Bando à Parte. Ainda que peque por uma captação de som às vezes claudicante, que dificulta um pouco a compreensão dos diálogos no núcleo da família, a sutileza da direção, roteiro, montagem e todos os outros aspectos técnicos coordenados pela cineasta convergem num belo audiovisual a ser visto e escutado, construindo de grandes momentos como quando Jota resume seu desespero e descompasso à Bela: “Eu queria estar com eles o resto da hora que eu tinha direito mesmo que fosse em silêncio.”

Herdeira do mestre Ken Loach, a cineasta portuguesa pratica o cinema de drama social pesaroso mas profundamente empático, tendo como sua clave de sol a atuação maestra de Lúcia Moniz como a mãe que vai sendo a agulha que impõe a destreza segura na tessitura minimalista de Listen. O filme provoca dor, revolta, incredulidade (será mesmo que os três filhos nunca mais verão os pais?) e também sentimentos de solidariedade e de redenção, de algum fio de esperança em meio a um total desespero quando as crianças são levadas.

Listen (2020)
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema Cortesia Mostra SP

Corra e olhe o céu

Provas são forjadas, os pais são fichados como agressivos, a mãe nem pode se comunicar com a filha na linguagem de sinais, “apenas em inglês”. Toda a sorte de desprezo e intolerância que é reservada aos pobres e invisíveis não é descompassada ou exagerada ou colocada de forma apressada na narrativa. A vida golpeia de forma dura e, às vezes, insistente, sem dó ou espaço pra respiros mesmo. Lu não é ouvida mas ela corre e olha o céu, abre os braços e se imagina voando. Palavras não são necessárias para expressar o que aquela criança sente.

Ana Rocha de Sousa sabe e costura bem as tensões dramáticas e digressões entre as nuances de suas personagens bem como a mudança de tom na história. Ali ninguém se escuta ou se entende. Para além da cacofonia não há interesse real do governo britânico em acolher ou praticar a escuta com os que escolhem morar na Inglaterra. E por outro lado, não sem razão, os imigrantes não querem aprender o idioma pois se ressentem e temem ser perseguidos, extraditados. A cena do tribunal é a única onde minimamente o diálogo entre as partes transcorre sem interrupções por razões óbvias e regulamentares.

Nascida na ilha de Guernsey no Canal da Mancha, a cantora e compositora de origem portuguesa Nessi Gomes compôs a trilha sonora que traz um acalanto e respiros necessários ao longo dos blocos dramáticos de Listen. E é ela que canta o brado, a canção que é também oração e que parece ser a forma que Lu encontrou de mirar as estrelas e pedir por salvação para sua família – “Hold My Hand”, que ocupa os créditos finais.

Um grande momento
“Meus filhos não estão à venda”

[45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo]

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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