Crítica | Festival

Noite de Seresta

A subjetividade do sucesso

(Noite de Seresta, BRA, 2020)

  • Gênero: Documentário
  • Direção: Sávio Fernandes, Muniz Filho
  • Roteiro: Sávio Fernandes
  • Duração: 19 minutos
  • Nota:

Há brechas em Noite de Seresta que nos transportam para além do que é visto e capturado pelas lentes de Sávio Fernandes e Muniz Filho, para além da encenação e da performance, alcançando também o profundo desejo de trocar com o outro, de dedicar-se ao outro e de compreensão daquele microuniverso, regado de um afeto que antes é particular, para só então transbordar para além dos personagens e aproximar o espectador; fale de sua vila e falará para o mundo, e o filme segue a risca esse preceito.

Katia Blander é uma artista, no sentido mais primordial da palavra. Não é apenas apaixonada pelo que faz, como dedicada a sua rotina, que é executada com prazer com o filme capta com intensidade, sua presença e sua capacidade de motivar seu entorno e tornar-se o satélite de quem a rodeia, como todo artista. Sua história pessoal se confunde com sua arte, entrelaça esses dois lados de mulher que se engrandece exatamente por fazer do todo de sua história um grande acontecimento, sejam eles o palco onde brilha ou sua tragédia pessoal familiar que literalmente a acompanha.

Noite de Seresta

Se há alguma diferença entre a protagonista e Beyoncé, Maria Bethânia ou Madonna, a mesma desconhece, tão confiante em si que é – e essa autoconfiança a molda para a realidade que não a abate: lhe falta a fama. Mas se não é perseguida por paparazzis nem estampa sites de entretenimento, Katia compensa essa “pequena ausência” com entrega desmedida e paixão carnal pelo que faz, ainda que sua cercania se encerre em um bailão improvisado com um karaokê num fundo de quintal, tudo isso literalmente. Sua absoluta certeza em si mesma a coloca no patamar onde acredita estar.

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Sávio e Muniz a filmam com a grandeza que emana dela, sem jamais tripudiar de sua história, e com isso não apenas apresentam o retrato sobre uma parcela considerável de mão de obra ofuscada que representam a maior fatia de quem lida com arte no mundo – nem os 15 minutos de fama chegam para todos, por mais empenhados e merecedores que a maioria seja. Passando por cima desse mero detalhe, os diretores criam uma espécie de making of sobre alguém que prescinde de luz porque criou a própria, um mockumentary que nada tem de falso, apenas reflete uma verdade que não é do conhecimento de ninguém.

Noite de Seresta

Com lampejos de sonho artificial que se amalgamam com o caráter absolutamente naturalista de um universo interiorano, Noite de Seresta de alguma forma se irmana ao igualmente doce Kris Bronze de Larry Machado ao perseguir uma classe social bem sucedida, engrandecida e potente em seu lugar social que ainda assim parece permanecer à margem, independente do que o sucesso representa, e seus personagens o obtém, sem dúvida. Ao fazer uma provocação a respeito dessa relativização sobre o alcance de sonhos e a concreta realização pessoal, ainda que não absoluta, Sávio e Muniz revestem de reverência uma personagem que exige um novo lugar social – artista independente empreendedora de si mesma. Muito prazer, seu nome é Kátia Blander.

Um grande momento
O “dueto” com o filho

[24ª Mostra de Cinema de Tiradentes]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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