Crítica | Festival

Operação Hunt

Pela adrenalina

( 헌트, KOR, 2022)
Nota  
  • Gênero: Policial
  • Direção: Lee Jung-jae
  • Roteiro: Jo Seung-Hee
  • Elenco: Lee Jung-jae, Jung Woo-sung, Hye-jin Jeon, Heo Sung-tae, Man-sik Jeong, Go Yoon-Jung, Kim Jong-soo, Paul Battle
  • Duração: 130 minutos

A vida de Lee Jung-jae virou um fenômeno, de uma hora pra outra. Protagonista da série sensação Round 6, o ator sul-coreano viu sua produção se encher de prêmios, muitos deles em seu nome, incluindo Emmy e SAG. A partir daí, ele ganhou poder para inclusive estrear na direção, com esse Operação Hunt, filme que se inspira em eventos reais acontecidos na década de 80. Aos 25 anos de carreira, o ator agora transformado em estrela, se embrenha de maneira muito digna do outro lado das câmeras, com a segurança de quem já esteve nesse lugar. É uma produção instigante e cheia de ritmo, que acaba por compensar uma ideia menos globalizada para o filme, que parece não se importar muito com o estado do espectador diante da narrativa. 

Explica-se: Operação Hunt, exibido fora da competição do último Festival de Cannes, tenta observar um estado de espírito verídico de 30 anos atrás, quando as Coréias tentaram se unificar, e foram recebidas com alguns protestos terroristas de ambas partes para impedir tal feito. O filme fantasia esse momento, colocando espiões de inteligência sul-coreana tentando desbaratar uma intrincada (mesmo) conspiração, que a cada nova camada, se torna mais e mais… intrincada. Em resumo, o filme confia demais na sagacidade da plateia, ou apenas não tinha qualquer interesse de agradar quem não fosse íntimo da situação em questão, ou seja, o público local. Assim sendo, não é estranho para ninguém se sentir perdido em tantas reviravoltas. 

Se o roteiro fica a desejar no quesito compreensão, a direção do longa é ágil o suficiente para garantir bons momentos de diversão escapista. Parece que na ânsia de criar uma série de Jason Bourne para chamar de sua, a Coréia do Sul criou essa rivalidade super azeitada entre dois protagonistas, das únicas coisas claras da narrativa. É do choque entre esses personagens que nascem cenas movimentadas e bem coreografadas, mostrando que Jung-jae tem potencial para ir além também na direção. Uma relação ambígua que a direção realça com substância, e não deixa muito a questionar a respeito de sua mão afiada. É o caso de se agarrar a complexidades dessas sequências, que mantém a tensão entre o espectador e não deixa cair o interesse, ainda que parcial.

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Operação Hunt
Cortesia Festival do Rio

Assim como a dupla formada entre Jung-jae e Jung Woo-sung (de Os Invencíveis) é essencial para o sucesso da empreitada, e ela funciona à perfeição. Partindo de um respeito mútuo, que se desenvolve para um acerto de contas do passado, que vai refletir no estado onde ambos estão hoje, até chegar na explosão de ódio e desconfiança, os atores passam verossimilhança sempre, em cena. O espectador não consegue comprar um ou outro lado simplesmente porque são convincentes o suficiente para transformar nossa percepção, e nos colocar em permanente estado de dúvida. É delicioso acompanhar cada nova descoberta entre ambos, porque é nesse lugar que Operação Hunt consegue compensar suas falhas e cria um elo de comunicação popular. 

Se não fossem esses dados extras, Operação Hunt naufragaria em sua tentativa falha de estabelecer contato com o público através de sua abordagem complexa. No lugar disso, temos uma dupla de protagonistas muito especiais, que conseguem deixar sua química contagiar todas as relações que estabelecem também com o restante do elenco – a cena onde Pyong-ho bate diversas vezes na cara de um diretor da agência de inteligência é de arrepiar. Além disso, a direção faz sozinha o trabalho de garantir ao espectador não-associado à temática que sua diversão estará garantida, entre explosões e tiroteios. Ou seja, estamos diante de um típico passatempo de fim de tarde, que insiste em acessar nossas sinapses, onde só queremos relaxar e curtir o puro suco de adrenalina. Ao que cabe a Jung-jae, serviço completo e bem feito. 

Um grande momento
O primeiro embate braçal entre Pyong-ho e Jung-do

[Festival do Rio 2022]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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