Crítica | FestivalFestival do Rio

Os Tradutores

(Les traducteurs, FRA/BEL, 2019)
Suspense
Direção: Régis Roinsard
Elenco: Olga Kurylenko, Alex Lawther, Sidse Babett Knudsen, Lambert Wilson, Riccardo Scamarcio, Patrick Bauchau, Eduardo Noriega, Sara Giraudeau, Thomas Lemoine, Frédéric Chau, Miglen Mirtchev, Maria Leite, Anna Maria Sturm
Roteiro: Romain Compingt, Daniel Presley, Régis Roinsard
Duração: 105 min.
Nota: 2 ★★☆☆☆☆☆☆☆☆

É interessado nos operários das palavras o cineasta Régis Roinsard. Seu primeiro longa-metragem foi A Datilógrafa (2012) e desta vez ele volta sua atenção para Os Tradutores. Os roteiristas são os mesmos – Roinsard, Daniel Presley e Romain Compingt – e o clima mudou de comédia romântica para suspense. Outros tempos, o anterior passava-se no fim dos anos 1950 e agora o diretor quer falar do hoje, do estado desvairado da indústria literária. O apelo é internacional pela presença de atores de diferentes países da Europa falando seus idiomas nativos e o modelo é o gênero que nunca sai de moda: romance policial.

Em papel seria um calhamaço, difícil de ser devorado em única sentada. Complexidade não é o problema. Pelo contrário. O instinto devorador jamais desperta em (ou por falta de) virtude das reviravoltas, tão indisfarçavelmente plantadinhas em lugares estratégicos e frequentes que desanimam ao invés de atiçar curiosidade. Sem emoção não há tesão pela página seguinte e Os Tradutores talvez tenha a sequência de corrida contra o relógio – envolvendo trem, polícia, ambulância, xerox, skate e todos os ingredientes teoricamente certos – mais sem adrenalina do cinema recente.

Não perdoando sequer a premissa de reversão da ideia de que a rotina de tradução é maçante e anticinematográfica, o longa-metragem em verdade se empenha em mostrar que as aparências não enganam e julgar o livro pela capa não tem erro, algo grave considerando que são reforçados diversos estereótipos de nacionalidade, aparência e profissão.

Ordens do mundo contemporâneo, como leis do capitalismo, paranoias com segurança e confinamento supervisionado, são abaladas pelo genial autor à moda antiga, aquele que não se importa com dinheiro, tem no editor um poderoso inimigo, oscila entre resgatar e sacrificar o fã e escapa da morte graças a Marcel Proust e um exemplar de “Em Busca do Tempo Perdido”. O suporte papel salva, a tecnologia golpeia.

O criador sabe mais do que todos e tem sempre razão. Sendo o jogo de desmascarar pessoas, a obra de Roinsard pode ser mesmo o que parece: fogo nos livros, em cinema tudo se resolve rapidamente na linguagem comum das imagens. Mas se é afinal o texto que fica, certamente deste filme nada restará.

Um Grande Momento:
What the world needs now is love.

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[Festival do Rio 2019]

Taiani Mendes

Crítica de cinema, escritora, poeta de quinta, roteirista e estudante de História da Arte. Também é carioca, tricolor e muito viciada em filmes e algumas séries dos anos 90/00.
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