Crítica | Cinema

Pinóquio

Fabulações fáceis de identificar

(Pinocchio, ITA, FRA, GBR, 2019)
Nota  
  • Gênero: Fantasia
  • Direção: Matteo Garrone
  • Roteiro: Matteo Garrone, Massimo Ceccherini
  • Elenco: Federico Ielapi, Roberto Benigni, Rocco Papaleo, Massimo Ceccherini, Marine Vacth, Gigi Proietti, Alida Baldari Calabria, Alessio Di Domenicantonio, Maria Pia Timo, Davide Marotta, Paolo Graziosi, Massimiliano Gallo, Gianfranco Gallo
  • Duração: 125 minutos

O cineasta Matteo Garrone já tinha mais de 10 anos de carreira quando apresentou no mercado mundial uma visão ultrarrealista do jogo de xadrez por trás da violência italiana contemporânea; sua adaptação para o best-seller mafioso Gomorra rendeu série, prêmios e um lugar promissor dentro de um cenário onde a Itália parecia desamparada enquanto fomentadora de renovação cinematográfica. Depois desse êxito, o país voltou a experimentar relevância, e Garrone nunca desceu da onda que surfa desde então. Mas esse cineasta se desconstrói com a mesma facilidade com que finca seus pés no lúdico, ao ponto de parecer uma sina – a cada passo que semeia sua ligação com o realismo trágico criminoso de seu país, responde com algo como o novo Pinóquio.

A obra de Carlo Collodi ganhou o mundo há exatos 80 anos, quando Walt Disney semeou no inconsciente cinéfilo a história do boneco que queria ser gente. De tintas já reconhecidamente sombrias, Garrone se sente muito confortável com a galeria de escroques que circundam a história de Gepeto e seu filho criado a partir de um toco de madeira. Já tendo filmado inúmeros tipos de anti-herói, com roupagens que vão da mais naturalista ao seu extremo oposto barroco, o que chama atenção nessa nova adaptação muito bem recebida em seu país de origem é como o passeio por esse universo que transita entre a inocência e a esperteza, a pureza e a vilania, é gradual, consistente e muito dinâmico.

Pinóquio

Com extrema fidelidade a um universo que já conhecemos de cor, o que impressiona nessa nova versão é a capacidade sedutora de Garrone em encapsular realidades a ponto de nos tragar para as mesmas, nos tornando a um só tempo reféns e testemunhas do jogo arquitetado. Seria fácil dispersar de uma trama que você não apenas prevê todos os passos como de fato eles acontecem, porém a capacidade como contador de histórias do diretor é posta a prova aqui, e sai vitoriosa – apresentados todos os elementos e tendo a ciência que nada será feito de maneira diferente do original, ainda assim o espectador se sente abduzido pelo assombroso conto de, porque não, sedução desenfreada escrita há 140 anos.

E o biênio 2020/2021 estava precisando reencontrar esses personagens e seus dilemas, para entender como promessas vazias, um mundo (fake) de oportunidades e o valor do aprendizado em detrimento à soluções fáceis são saídas aparentemente facilitadoras,que no entanto só contribuem para dissolução do que nos é mais caro. Sem jogar autoajuda na direção do público, Garrone tem discernimento que a moral das fábulas já incutem valores suficientes para não paternalizar o espectador – o resultado é um programa cuja embalagem casa à perfeição com o conteúdo, nada que ostente gratuitamente porém amplificador de valores.

Pinóquio

Pinóquio é abertamente manipulado por pessoas que se imaginam poderosas, mas cujas ideias acabam se esvaindo ao longo da jornada – talvez por todas terem uma impressão de um lugar superior ao que realmente têm, como a dupla O Gato e a Raposa, que o filme observa de maneira mais aproximada. Garrone dá a esses personagens uma sensação de superioridade que nunca é efetiva; sua condição de detentora de uma verdade desconhecida ao protagonista é falsamente mascarada ao espectador, que nunca se deixa enganar, e que isso por si só autentica o patético de suas pretensas armações.
São ambos poderosos de ocasião, cuja onipotência não dura sequer 4 anos.

Esteticamente, Garrone parece ter aprendido uma lição com a última vez que ostentou a fabulação em sua obra, em O Conto dos Contos. Pinóquio tem maquiagem elaborada, direção de arte esmerada, efeitos especiais eficientes, mas nada disso é ostensivo a ponto de sacrificar o olhar em direção à obra; com extrema sutileza, o diretor entendeu que a mensagem de Collodi alcança ampla identificação quando aciona as teclas mais delicadas, e a humanidade é alcançada. Se um atum falante é necessário para o barroquismo do longa se fazer presente, é em sua despedida e na emoção que a mesma provoca que a memória do espectador deve permanecer.

Uma curiosidade a respeito do “Gepeto” Roberto Benigni, provavelmente de conhecimento geral: há 20 anos atrás, Benigni saía de um Oscar super discutível para um Framboesa de Ouro comemorado por muitos, fazendo… Pinóquio – sim, o próprio boneco. Agora, ele reaparece como o pai do mesmo, se recupera do fiasco, deixa uma marca carinhosa na retina do público com sua entrega que sempre varia entre o bufão e a delicadeza , e Garrone ainda o coroa com a cena final que gostaríamos de ter visto em A Vida é Bela, finalmente emocionando com justiça e sem excesso de açúcar, deixando clara a diferença entre seus realizadores.

Um grande momento
O último encontro entre Pinóquio, o Gato e a Raposa.

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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