Crítica | Festival

Raquel 1:1

Uma nova gênese

(Raquel 1:1, BRA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Mariana Bastos
  • Roteiro: Mariana Bastos
  • Elenco: Valentina Herszage, Priscila Bittencourt, Ravel Andrade, Emílio de Mello, Eduarda Samara
  • Duração: 90 minutos

“No princípio Deus criou o Céu e a Terra”. Assim começa um dos marcos mais firmes, influentes e poderosos do patriarcado, a ˜Bíblia Sagrada˜. A palavra de Deus, escrita por homens, interpretada por homens, segue ali registrada, mantendo as mulheres como pecadoras, causadoras do mal humano e condenadas ao sofrimento e subjugação. Raquel 1:1 (Raquel, Capítulo 1, Versículo 1) chega para abalar essa estrutura e questionar a imagem perpetuada que faz com que, em um mundo majoritariamente dominado pelo cristianismo, mulheres sigam sendo vistas como seres inferiores e o machismo siga violentando e matando.

Assinado por Mariana Bastos (que já dividiu a direção com Emir Filho do longa Alguma Coisa Assim), o único filme brasileiro presente na seleção do festival SXSW esse ano questiona a Palavra de maneira diferente, sem abandonar a fé. A protagonista é crente e sempre deixa clara a sua postura de temente a Deus, mas seu objetivo é revisionar e reescrever o papel da mulher na história. Talvez como aquela de seu nome, outra mal interpretada, carrega o mundo para sua experiência e sofre a perseguição reacionária que reflete o nosso mundo.

A forma de Raquel 1:1 busca na alegoria do horror o que há de assustador nas relações humanas. A própria questão da fé facilita a aura metafísica de algumas interações e isso traz força ao lado fantástico do filme. E se chamados na mata, fogo e tons graves afastam do real; nem sempre é possível determinar o metafórico, uma vez que algumas passagens, mesmo que absurdas — onde acusações emocionadas com ares do século XIV são completamente factíveis — ainda podem acontecer, como o ataque na festa de aniversário.

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Porém, se o longa segue muito bem quando trilha este caminho, há uma certa irregularidade quando se afasta dele. No lado oposto de Raquel, frente à igreja, estão Ana Helena e sua mãe, numa dinâmica de antagonismo nem sempre funcional. De modo geral, a relação com a pequena cidade tem bons momentos, mas também tem elementos que se ressentem da falta de organicidade, e por um tempo, em seu último ato, o longa perde o fôlego, a despeito da mensagem manter-se sempre poderosa. Assim como a atuação segura de Valentina Herszage (de Mate-Me Por Favor), que impressiona da primeira à última cena.

Ainda que tenha algum desequilíbrio, Raquel 1:1 tem muito a dizer e, ainda que seja explícito demais ao defender a motivação de sua personagem, algo que talvez nunca seja excessivo em nossa sociedade, é habilidoso ao retratar a contestação e a ânsia de uma fase da vida que pode trazer a mudança. Fazer isso sem afastar-se de uma comunidade fechada, e ver a reação da própria, é muito bom, assim como não perder o poder do estrutural, que toma até mesmo as mulheres, também.

E que a contestação seja sempre, constante, porque aquilo que se prega ainda hoje, essa campanha perpétua contra a mulher, não só não deveria mais existir, como nunca deveria ter existido. E que as que não queimaram queimem as palavras que fizeram suas avós arderem e seguem matando suas mães, irmãs e filhas.

Um grande momento
Buraco na mata

[SXSW 2022]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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