Crítica | Festival

Revoada – Versão Steampunk

Por mais que esteja esteticamente presente no imaginário brasileiro, o cangaço nunca teve uma definição precisa e, muito menos, uma forma fixa. Ele se move entre a violência e a sobrevivência, entre o gesto político e a brutalidade que o próprio contexto produz. Um novo deslocamento do território está em Revoada – Versão Steampunk, animação de Ducca Rios que, longe de tentar organizar essa imagem/memória, parte dela assumindo-a como matéria instável e sujeita a novas configurações.

Adaptado do longa de José Umberto Dias, essa versão cibernética do cangaço não busca fidelidade. A intenção é justamente transformar a imagem, levando-a a uma outra possibilidade. O sertão reaparece em Rios atravessado por metal, por tecnologia do mal, por máquinas que parecem improvisadas e por um mundo que não projeta futuro, apenas reorganiza – e reposiciona – o conflito. A natureza se transforma em robô, o couro vira engrenagem, o corpo se mistura à prótese, e o cangaço se torna um cybercangaço que não se explica, e nem precisa disto.

A apresentação ao universo imagético se dá por meio de Lua, mas é o ataque inicial dos macacos que define o movimento. A volante assalta o acampamento, Lampião cai, Maria Bonita também, e o que resta do bando de cangaceiros, chefiados por aquele que conhecemos primeiro, segue em deslocamento pelo ambiente árido do sertão. Em fuga constante, a vingança move o grupo, sem que haja tempo para reorganizar o mundo, mesmo em pensamento. O filme avança a partir da ruptura de códigos, e é nesse avanço que encontra seu ritmo.

A narrativa é frenética e intensa, repleta de perseguições, embates e trajetos que não oferecem descanso. Indo e voltando no tempo, histórias se revelam e fazem com que a continuidade não dependa de explicação. A urgência da trama não dá muito espaço para divagações e explicações. Em um movimento contínuo, sem que se busque o excesso de construção, a tensão se sustenta. Revoada – Versão Steampunk funciona bem enquanto se mantém nesse fluxo.

A animação em 2D acompanha a intenção. Embora impressione pelo resultado, não há uma busca pelo acabamento perfeito. O movimento é duro, o traço não é limpo. Há desgaste, peso, um certo atrito entre os elementos e formas escolhidas. Cada elemento tem o seu espaço, a sua justificativa, e o cybercangaço surge como se cada peça tivesse sido encaixada à força naquele ambiente. Aquele mundo não é estável, e a imagem carrega isso.

A violência se inscreve sem alívio no mesmo registro pesado. Ela aparece, permanece e não desaparece no corte, muitas vezes sendo a marca deste. Os corpos sofrem impacto, o confronto deixa rastro e não há tentativa de suavizar o choque. A materialidade que surge em tela sustenta a experiência.

Por trás da forma e das escolhas visuais, Revoada – Versão Steampunk toca em uma questão complexa, de posições conflituosas. O banditismo ali não é neutro, ele carrega uma história de desigualdade e ausência, e nem sempre o filme consegue sustentar essa ambiguidade. O discurso político está ali, assim como elementos humanos, como a ganância e a própria vingança. Em alguns momentos, a tensão permanece aberta, em outros, ela se aproxima de uma lógica mais direta, quase mítica, que simplifica o conflito.

Ainda assim, o que fica é o deslocamento da imagem. O cangaço não aparece como passado reconstruído, mas continua em movimento, atravessado por excesso, por invenção e por um mundo que insiste em não se organizar.

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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