Crítica | Festival

Eu Te Amo

Relações que destroem

(Eu Te Amo, BRA, 1981)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Arnaldo Jabor
  • Roteiro: Arnaldo Jabor
  • Elenco: Sônia Braga, Paulo César Pereio, Vera Fischer, Tarcísio Meira
  • Duração: 110 minutos

Alguns filmes têm um impacto muito forte desde a primeira vez que assistidos, mas é sempre interessante perceber como um título se reconfigura com o amadurecimento da sociedade e com as vivências do espectador a cada nova revisão. É o caso de Eu Te Amo, exibido na Mostra de Filmes Restaurados do XXI Panorama Internacional Coisa de Cinema, uma experiência que ganha ainda outros contornos com o restauro e a possibilidade de ver na tela grande, em boa qualidade de som e imagem, uma obra nunca acessada desta forma por parte do público.

O longa de Arnaldo Jabor é um filme que têm muitas camadas e se relaciona com o contexto mais geral e com o lado pessoal das relações. Para além da história, o que primeiro se impõe em Eu Te Amo é o confinamento. O lugar – físio e emocional – que funciona como uma espécie de laboratório emocional, um espaço fechado onde duas subjetividades se chocam até o esgotamento. Sem negar a familiaridade com o teatro filmado, o filme se aproveita disso para destacar o diálogo, a performance e a palavra como instrumento de poder.

A estrutura é mínima. Um homem e uma mulher se encontram, se envolvem e passam a orbitar um ao outro dentro de um apartamento que parece suspenso no tempo. Sônia Braga e Paulo César Pereio constroem essa relação como um campo de tensão permanente. Não há progressão dramática tradicional. O que existe é um acúmulo de embates, confissões e pequenas violências que vão se repetindo, como se os personagens estivessem presos a um circuito fechado.

Como com qualquer obra de arte, é impossível ler o filme sem pensar no contexto da época em que foi lançado. O Brasil passava por uma transição estranha depois de quase 20 anos vivendo sob ditadura militar e flertando com a abertura política. Metaforicamente, aquele casal é o retrato de uma classe média intelectualizada que, recém-saída da repressão mais dura da ditadura, experimentava uma espécie de vertigem discursiva. Fala-se demais, expõe-se demais, mas sem conseguir transformar essa fala em ação ou em transformação real. O apartamento, nesse sentido, aparece como alegoria de um país que ensaia a liberdade, mas ainda carrega os vícios do autoritarismo nas relações mais íntimas.

Jabor desloca aqui o foco do coletivo para o privado. Se antes a crise era social e política em escala ampla, em Eu Te Amo ela se condensa no corpo, no desejo e na linguagem. O conflito não desaparece, se interioriza e isso faz com que o filme funcione como um elo importante entre o cinema político dos anos 1960 e uma produção voltada para as subjetividades urbanas nos anos 1980.

Pensando no deslocamento temporal, revisitar o filme possibilita identificar seu lugar diante de várias mudanças. Por mais que se considere o contexto do lançamento – e isso jamais deve ser ignorado em revisões –, o longa envelhece de maneira irregular. Há um desgaste na forma como as relações de gênero são construídas. A personagem de Sônia Braga é frequentemente enquadrada dentro de uma lógica de desejo masculino que a aprisiona em certos estereótipos e isso aparece como um sintoma claro de uma estrutura patriarcal que atravessa o filme. O discurso dele, interpretado por Pereio, tende a dominar, a organizar a dinâmica do encontro, enquanto ela oscila entre resistência e absorção.

Ao mesmo tempo, Eu Te Amo não tenta esconder a assimetria, deixa exposta. E é justamente por isso que ele resiste ao tempo de uma forma incômoda. O que poderia ser lido como romantização de um amor intenso se revela, com mais nitidez hoje, como um retrato de uma relação tóxica, baseada em dependência, manipulação e desgaste emocional. Não há idealização possível ali. Cada aproximação carrega uma agressividade escondida, cada gesto de afeto parece vir acompanhado de uma cobrança.

O movimento de autodestruição afetiva de antes segue o mesmo, mas encontra um espaço de melhor definição. Hoje, com um vocabulário mais preciso sobre relações abusivas, o que era visto como intensidade passa ser reconhecido como ciclo. O erotismo também se desloca com o tempo. Longe de ser libertador, ele aparece como mecanismo de aprisionamento. O desejo não abre possibilidades, ele estreita. Os personagens não se encontram, se consomem. Há uma sensação constante de que tudo já começou gasto, como se aquela relação nascesse no momento exato em que já está acabando.

Formalmente, o filme mantém uma força impressionante. Para além das atuações magnéticas de Braga e Pereio, a câmera que insiste nos corpos, a repetição dos enquadramentos, a claustrofobia do espaço, tudo contribui para essa sensação de sufocamento. Não há respiro e isso impede leituras confortáveis ou conciliadoras. Eu Te Amo permanece como um objeto estranho, um filme que se torna mais áspero com o tempo. O que antes podia ser lido como drama passional, hoje se revela como um retrato cruel de vínculos baseados em carência e poder. São relações onde, sem ter como ficar e sem saber como sair, não há caminho possível a seguir.

Um grande momento
A perseguição final

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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