(Roma, MEX/EUA, 2018)
Drama
Direção: Alfonso Cuarón
Elenco: Yalitza Aparicio, Marina de Tavira, Diego Cortina Autrey, Carlos Peralta, Marco Graf, Daniela Demesa, Nancy García García, Verónica García, Andy Cortés, Fernando Grediaga, Jorge Antonio Guerrero, José Manuel Guerrero Mendoza
Roteiro: Alfonso Cuarón
Duração: 135 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

A consciência social e as mudanças de perspectiva permeiam todo o nostálgico resgate de Alfonso Cuarón em Roma. Não de maneira óbvia, mas no modo crítico com que retrata a relação da família com a empregada Cleo, personagem inspirada em sua babá. Indo além do perceptível afeto que permeia a relação, Roma fala do abismo de classes, da insegurança das mulheres e de um momento político no México onde a luta pela manutenção de direitos era uma realidade.

Cleo, vivida por Yalitza Aparicio, em uma atuação delicada e discreta, é mais uma das muitas pessoas que, principalmente no século passado, via no trabalho doméstico a única possibilidade de mudar de vida, abdicando de sua própria casa e adotando uma família que nunca seria sua como se isto fosse, naquele ciclo-vicioso que países latinos conhecem tão bem.

Mas há muito afeto no modo escolhido para expor a jornada desta mulher. O modo com que Cuarón assume o filme e conta a história de alguém que foi tão importante em sua vida é extremamente pessoal, tanto que faz questão de assinar o roteiro, a produção e a montagem, além da direção de fotografia. Há sentimento e nostalgia em seus planos em movimento e estáticos, no modo como poeticamente trabalha com a luz e na definição de quadros que transmitem os sentimentos de cada um momentos retratados, seja em detalhes pontuais ou na grandiosidade de algumas cenas.

Roma perpassa questões estruturais, que se encontram na constituição da família e na determinação da infância, em sua inocência, como principal espectadora de eventos internos e externos ao seu ambiente de conforto, o que reafirma o envolvimento de Cuarón com aquilo que narra. Há também um encontro com o presente do cineasta, em uma espécie de demonstração de o quanto tudo aquilo influenciou a trajetória do realizador, em referências afetivas a trabalhos recentes.

O diretor segue recriando novos momentos, com sentimentos que vão desde a descoberta do suposto amor ao medo diante do caos do El Halconazo, como ficou conhecida a matança de jovens mexicanos que protestavam contra as mudanças na educação no Corpus Christi de 1971; da insegurança com uma gravidez ao seu desfecho cheio de culpa. Isso, sem deixar de passar por momentos satélites a Cleo, como toda a situação da família empregadora.

De modo melancólico e inesperado, todas aquelas relações tão próximas e devotadas enfatizam a solidão como condição inevitável do ser. O “sempre estamos sós”, que remete a Pessoa: “Quando estou só reconheço/Se por momentos me esqueço/Que existo entre outros que são/Como eu sós, salvo que estão/Alheados desde o começo” e faz de Roma um filme tão belo quanto triste e marcante.

A produção tem arrebatado prêmios por onde passa e é uma das favoritas na corrida do Oscar 2019. No Brasil, foi o filme de encerramento da 42ª Mostra de São Paulo e, infelizmente, será visto por poucos no cinema. Comprado pela Netflix, encontrou os problemas habituais da plataforma de streaming com os exibidores, principalmente quanto à janela de exibição antes da disponibilização online, que aconteceu hoje, 14 de dezembro. Quem perde com isso é o público, que não pode ver toda a beleza de Roma numa tela grande, com som potente e todo um ambiente de experiência coletiva que nunca se repetirá em casa.

Um Grande Momento:
Na praia.

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