Crítica | Festival

See For Me

Encontro afobado de universos

(See For Me, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: Randall Okita
  • Roteiro: Adam Yorke, Tommy Gushue
  • Elenco: Skyler Davenport, Kim Coates, Jessica Parker Kennedy, Laura Vandervoort, Matthew Gouveia, Keaton Kaplan, Pascal Langdale, Emily Piggford, Joe Pingue, George Tchortov, Drew Tyce
  • Duração: 92 minutos

Todo filme tem um ponto de partida. Aquela ideia original — às vezes muito original, às vezes nem tanto — que serve como a verdadeira razão de existir do filme. Esses pontos centrais podem ser concretos, em situações específicas; abstratos, quando levam à tela interpretações de sentimentos, ou até mesmo híbridos. A partir deles, outras relações são construídas e personagens se desenham para que uma trama completa se estabeleça. Embora nem sempre seja algo identificável em todos os filmes, em See For Me está muito claro de onde Adam Yorke e Tommy Gushue partiram para a criação da história de sua esquiadora cega que ganha dinheiro cuidando de gatos na ausência de seus donos.

Se parte de um possível drama pela deficiência de Sophie enquanto ex-atleta e a sua dificuldade com a aceitação da cegueira, em cenas pontuais que ressaltam o esporte e sua ligação com ele ou como ela faz questão de esconder sua condição, o filme de Randall Okita não demora para chegar ao seu lugar: o thriller. Não há um interesse real nas questões subjetivas da protagonista, embora elas estejam salpicadas no roteiro. A intenção é usar sua incapacidade de visão como instrumento para criar uma nova abordagem, criativa e curiosa, para os filmes de invasão.

Aqui, tanto Yorke e Gushue quanto Okita querem trazer ao filme o encontro da experiência com aplicativos de auxílio para pessoas cegas, como o Be My Eyes, e videogames em primeira pessoa. As apresentações de Sophie e o modo como usa a tecnologia para esconder de seus contratantes sua deficiência, e a de Kelly, aquela que a guiará pelo aplicativo no momento de necessidade, demonstrando suas habilidades em Battlefield não são por acaso. Ter Skyler Davenport, de fato deficiente visual, como protagonista também diz muito sobre a intenção de See For Me, já que elu é uma voz conhecida no mundo dos games, com dublagens em jogos populares como Final Fantasy VII Remake.

Para além da aventura gamer, o filme não tem um roteiro muito elaborado e toma emprestado vários clichês de thrillers de invasão doméstica. Não há uma preocupação que vá além da relação entre as duas personagens principais. Se há muita atenção para as situações que as obrigam a estabelecer contato, ambas bem temperadas com tensão: a primeira funcional tanto para a apresentação quanto para o posterior retorno, e a segunda pontuada com aquilo que a produção mais queria mostrar; tudo isso falta com o resto. Os vilões de See For Me, quase como NPCs, recebem pouca atenção e estão ali apenas para cumprir a sua função de geradores de tensão.

Na expectativa de construir um universo para inserir a sua concretização do fps real, as peças são dispostas, mas falta uma vontade real de encaixá-las e, por vezes, de que elas combinem com o resto do tabuleiro. Como Kelly, Jessica Parker Kennedy, lá no seu canto, em sua versão com câmera de Chamada de Emergência, tenta acompanhar e companheire de cenas, que é quem tem muito mais elementos de roteiro para trabalhar. Kim Coates, como o antagonista principal, chega muitos tons acima, tentando encontrar algo que claramente não foi dado a ele e que diverge entre tempos distintos dentro do próprio personagem.

Se falta muito ao roteiro, See For Me tem um ponto positivo onde se escorar: Okita é um bom explorador de ambientes e domina bem do espaço cênico onde confina sua protagonista, uma casa de arquitetura propícia para o suspense — com muitos pisos e contrastantes salas amplas envidraçadas e corredores escuros. Sensorialmente e voltando aos universos audiovisuais compartilhados, ele fortalece a atmosfera e é competente na elaboração da tensão.

Para além disso, é fato que o filme tem muito apreço e dedicação ao seu ponto-chave, à sua ideia original, e aí, especificamente, consegue criar algo curioso. É fato também que chega afoito onde queria, tão desesperado para mostrar a sua ideia ao mundo que se esquece de fazer com que o que está em volta funcione para a experiência durar mais tempo. Assim, ele mesmo se perde e, quando se encontra, já sem o elemento, não tem muito onde se apoiar. Mas que tem tudo para fazer os gamers delirarem, isso tem.

Um grande momento
Sophie e Kelly na adega

[2021 Tribeca Film Festival]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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