Crítica | Festival

Urubus

Desbravadores da cidade do pixo

(Urubus, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Claudio Borrelli
  • Roteiro: Claudio Borrelli
  • Elenco: Gustavo Garcez, Bella Camero, Bruno Santaella, Julio Martins, Robert Orlando
  • Duração: 113 minutos

Vivendo abandonados, roubando, enganando, praticando golpes, sobrevivendo como podem, os menores se tornam uma família sem adultos. Os autodenominados “Capitães de Areia” brotados da imaginação de Jorge Amado seguem reverberando em obras outras da literatura, do teatro e também do cinema. Urubus, filme de Claudio Borrelli, narra a história de Trinchas, CLB, Pequeno e Dudu/Gordinho os quatro mosqueteiros da Zona Leste que desbravam o centro de São Paulo com suas tintas, latas de spray, doses de ousadia, gírias e vontade de se afirmar num mundo que os repele.

Vamos atacar
Aqueles que não querem
Não permitem, não nos deixam sonhar
A bomba vai estourar

E a bomba estoura no meio do salão denominado Vazio no segundo andar do pavilhão da Bienal, no parque do Ibirapuera. Borrelli e sua equipe vão trabalhando bem os blocos narrativos e estabelecendo uma tensão interessante até os dois grandes pontos climáticos do arco, quando os Urubus são desafiados por forças internas e externas a irem além. A ação alucinante das investidas deles pelos arranhas céus de São Paulo, no salão de artes, numa quebrada onde um parceiro acaba fazendo o que não deve ou confrontando um grupo rival é recortada por uma edição equilibrada, documental e a fotografia bem contrastada de Ted Abel.

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Urubus
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema Cortesia Mostra SP

O filme tem uma mudança de gradação nas cenas com Val (personagem de Bella Carmelo), a estudante de artes que a princípio quer entrevistar Trinchas, logo se envolve com ele, e por consequência passa a acompanhar e filmar a turma pichando. Gustavo Garcez, que vive Trinchas e é pichador na vida real, interpreta na ficção uma dinâmica não muito diferente daquela própria – anda de skate com a galera, bebe, fuma beque, vai nos bailes, ouve rap, escala, picha – mas a invasão da Bienal de Arte de São Paulo parte da fabulação e da vivência de algo que só é revelado no epílogo de Urubus: aquela ali é uma história inspirada em fatos reais, com roteiro baseado nas experiências do pichador e artista plástico CRIPTA Djan que enche de elementos próprios o filme – inclusive o traço dos Urubus, que está nos cadernos de Dudu.

O momento em que CRIPTA Djan e outros pichadores paulistanos colocam a pichação sob os holofotes está no documentário (que serve até como um laboratório para esse filme ficcional) denominado Pixo, de 2018, dirigido por João Wainer e Roberto T. Oliveira. Outro elemento vital é a trilha sonora, afinal a oralidade, seja nos diálogos entre os urubus e os outros moradores das quebradas, grupos de pichadores que se encontraram pelo centro de São Paulo e no largo do Paysandu, ou nos slams (batalhas de rap), se destaca como algo dramaticamente funcional – Nocivo Shomon, Função RHK, Nível de Cima, SP Jungle, Nego Max e Sabotage estão tanto na trilha diegética quanto sendo cantados. A artesania foi um trabalho assinado por Silvio Piesco, que ressaltou que a primeira ideia era construir timbres sujos e distorcidos para fazer um paralelo com o pixo e tensão social e a anárquica dessa arte urbana. Então, há também, nessa fragmentação e fricção entre arte e tonalidades dramáticas, espaço para Mozart surgir num dos momentos mais comoventes de Urubus.

Urubus
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema Cortesia Mostra SP

Arte como
Crime
Crime como arte

Rodado em locações no centro de São Paulo e ainda em Paraisópolis, Urubus chama também atenção pelas atuações com, até então, um elenco predominante de não atores preparados por Fátima Toledo (de Cidade de Deus), que, se questionada por atores e atrizes por seus métodos algumas vezes abusivos é ainda assim respeitada. As nuances de Trinchas e CLB criam uma dicotomia muito interessante e até um racha nos Urubus, o que leva à tragédia, não sem antes transformar o protagonista profundamente – mesmo que o último ato da história perca sua força por impor um suposto final feliz.

Já tendo passado por diversos festivais pelo mundo, o filme faz agora sua estreia nacional na 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, com direito a exibição no vão livre do Masp, numa confluência importante com a cidade e o espaço urbano onde é inspirado e tem como cenário e personagem. A produção executiva de Urubus é assinada por Fernando Meirelles e Julia Tavares.

Um grande momento
“Posso limpar as mãos do meu filho?”

[45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo]

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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