Crítica | Streaming

Vigiados

Invertendo o jogo no slasher

(The Rental, EUA, 2020)

  • Gênero: Terror
  • Direção: Dave Franco
  • Roteiro: Dave Franco, Joe Swanberg, Mike Demski
  • Elenco: Dan Stevens, Alison Brie, Sheila Vand, Jeremy Allen White, Toby Huss
  • Duração: 88 minutos
  • Nota:

Pessoas em uma casa de veraneio são perseguidas por um psicopata. Se há algo original em Vigiados, é a modernização do tema. A casa onde Charlie, Michelle, Mina e Josh vão passar o fim de semana, não é deles e nem da família, e estava ali à disposição de todos num desses aplicativos de locação por temporada. Essa insegurança do tecnológico, tão em voga hoje em dia, dá um tempero, mas acaba não tendo muita relevância no resultado final.

Embora pontualmente eficiente, a direção do ator Dave Franco, a primeira em longas, não parece tão consciente de onde quer chegar, assim como o roteiro assinado por ele, Joe Sawnberg e Mike Demski. “Vamos juntar airbnb e slasher?” “Vamos!” E para por aí. O filme ainda tenta criar uma tensão entre os personagens pontuando racismo, xenofobia, traição, mas está sempre no quase, sem muita certeza de como ou para o quê chamar atenção.

Vigiados-2020

Numa dinâmica capenga, a única personagem tratada com um pouco mais de carinho é Michelle, vivida pela eclética e sempre ótima Alison Brie (de Entre Realidades e A Comédia dos Pecados), esposa do diretor. Mas não é que justamente nessa diferença o filme consegue encontrar um atrativo? Se demora a chegar na ação característisca do subgênero, quando o faz rompe com padrões. O filme banca a opção por desvirtuar a relação canônica da empatia.

É natural que o slasher dependa de personagens irrelevantes para todo o sangue que derramará até chegar aos seus protagonistas e à sua final girl. Vigiados aposta em figuras que importam à trama, ainda que extremamente antipáticas. Esse “jogo do não torcer”, ou por vezes até torcer contra, potencializa a estética do medo, entregando o filme integralmente a ela. Se há exceção, Franco elimina.

Vigiados-2020

Vigiados bebe em várias fontes e passeia bem entre referências. Em seu clímax, reverencia de Bava e o giallo como um todo e chega ao mais pop do cinema estadunidense dos anos 1980, aquele dos Crystal Lakes da vida. Entre a trilha marcada e manipuladora característica do gênero e planos mais longos, Franco acerta na apropriação de elementos. A cena de Mina fugindo do assassino é um ótimo exemplo disso. 

Porém, é um filme de acertos pontuais e equívocos mais visíveis. Se vai muito bem no que recicla, a vontade de mostrar demais – como em quase todo filme terror – atrapalha, seja com a quebra da linguagem ou com a marca do serial que já era tão óbvia. Vigiados é um slasher que vale pela ousadia da inversão e que, mesmo não ficando muito tempo na cabeça, tem lá a sua cota de entretenimento.

Um grande momento
Correndo na névoa.

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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