(Western, ALE/BUL/AUT, 2017)
Drama
Direção: Valeska Grisebach
Elenco: Meinhard Neumann, Reinhardt Wetrek, Syuleyman Alilov Letifov, Veneta Fragnova, Viara Borisova, Kevin Bashev
Roteiro: Valeska Grisebach
Duração: 119 min.
Nota: 9 ★★★★★★★★★☆

Há um interesse instantâneo quando se associa as adequações do gênero cinematográfico estadunidense, no óbvio título do filme, à história de uma tardia “colonização” de uma região, no caso, o leste europeu. Na Bulgária, um grupo de alemães vai construir uma hidrelétrica. A empáfia da chegada daqueles que se sentem superiores em uma terra que ainda não encontrou o seu espaço após a dissolução da União Soviética, o preconceito e a incomunicabilidade incitada entre os povos, e a dubiedade do progresso forçado são pontos destacados pela diretora Valeska Grisebach.

Em um universo extremamente masculino, como eram masculinos os westerns americanos e a realidade histórica que leva aos conflitos, quem liga as duas realidades é Meinhard. O trabalhador surge como o cavaleiro solitário, aquele que vai encontrar a afinidade no grupo que não seria o seu e, de certa maneira, expor as mazelas de uma pretensa colonização.

Quem contrapõe o protagonista é Vincent, um outro trabalhador alemão que, diferente de Meinhard, é o típico grosseirão. Enquanto um consegue, gradualmente, encontrar-se na comunidade búlgara, o outro é rejeitado. As diferenças, mais do que na ação, podem ser percebidas na relação de ambos com o próprio ambiente em que habitam, como em sua interação em cenas específicas com um simbólico cavalo.

Grisebach não inova apenas ao redefinir o western, transformando o que se espera de ação em observação. Sem que tome algum dos lados, expondo as mazelas de ambos, ela constrói um longa-metragem extremamente politizado. Há toda uma abordagem contrastante entre políticas econômicas dominantes em detrimento de um sentimento reacionário nacionalista do povo “invadido”.

A incerteza, impossível de ser ignorada em uma história como essa, define o tom de Western. Não há facilidade na construção da relação entre aquelas duas realidades que se encontram, assim como não é possível antecipar os eventos, algo que aumenta o clima tenso e reflete, de maneira palpável, a realidade retratada. A tensão reflete-se e estimula-se com as diferenças linguísticas, culturais e políticas de dois povos que ocupam historicamente espaços antagônicos.

A opção por não-atores e o acompanhar naturalista de uma interação linguística dificultada dá ainda novos pontos ao longa-metragem. Voltar a uma das principais barreiras humanas, a da exclusividade oral que possibilitaria a compreensão, vai além da exposição de uma questão perpétua entre Ocidente e Oriente.

Quando volta ao passado, ao abraçar um gênero cinematográfico específico para retratar uma realidade pouco crível em um mundo globalizado, e assim alcançar a violência, Western confirma Thomas Hobbes ao mostrar que o ser humano mantém as imperfeições e limitações involutivas que o definem como espécie. Independentemente de onde se esteja e de em que período se viva.

Um Grande Momento:
A chegada com o cavalo.

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